A vida obscura do criador de um ícone

Há um momento cabal em A história secreta da Mulher-Maravilha que expõe o alicerce de contrastes que é a obra investigativa da professora da universidade estadunidense de Harvard e redatora da revista New Yorker, Jill Lapore.

Passavam os anos 1930. Numa sala de reuniões, estão congregados o criador da super-heroína, William Moulton Marston; o ilustrador Harry G. Peters; e os editores de quadrinhos Shelton Mayer e Maxwell Charles Gaines. Eles discutem como deveria ser o visual da amazona.

Abre-se um parêntese para fato de que, naquele período, a Timely Comics havia estreado aquele que seria seu mais popular personagem, o Capitão América.

Marston, então, defende que, tal como o Soldado da Justiça, a Mulher-Maravilha teria de ser superpatriota. Se opuser à guerra e se dispor a sempre lutar pela democracia. Ainda semelhante ao Capitão América, deveria vestir azul, vermelho e branco. E também tiara dourada, e ser linda. E estar mais nua possível, obviamente. Para vender mais.

Lendo assim, não custa muito para se dar conta de que o criador da heroína, que é, acima de tudo, a representação do poder feminino, não passava de um machista oportunista. Sim. Quer dizer, não. Quer dizer, um pouco de ambos. Aí que está o achado do livro de Lapore: desvendar a sorte de contradições que delineou a vida de Marston. O admirável não está na exploração do secreto da história da Mulher-Maravilha, e sim no obscuro da história de seu criador.

Como pode alguém que inventou o exame do detector de mentiras ser um mentiroso compulsivo? William Moulton Marston era. E mais: um defensor ferrenho do feminismo adepto à poligamia, genitor de rebentos de mulheres distintas, com as quais vivia sob o mesmo teto.

A primeira esposa foi Sadie Elizabeth Holloway, que fazia parte da Liga do Sufrágio Igualitário, cujas reivindicações eram a igualdade entre os sexos, o direito ao voto e à educação, o controle da natalidade. Em seguida, trouxe para casa Olivia Byrne, que atuava como uma espécie de governanta, e com que teve dois filhos. Byrne era sobrinha de Margaret Sanger, ativista do Partido Socialista Feminino e famosa defensora do direito das mulheres aos métodos contraceptivos.

A convivência com esses mulheres e seus pensamentos foi a experiência que o então advogado, cientista e professor de Boston converteu em matéria para a criação de sua personagem. Na época, Marston já tinha se envolvido com roteiros de cinema e extraiu da literatura as principais referências para estabelecer a essência da princesa e embaixadora das Amazonas da ilha paradisíaca Themyscira, filha da rainha Hipólita.

Herland – A Terra das Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman, e Angel Island (inédito no Brasil), de Inez Haynes Gillmore, romances utópicos de carga feminista sobre mundos em que as mulheres prevalecem sobre os homens, foram as principais leituras construtivas de Marston.

A partir daí, foi escrito o roteiro do primeiro capítulo de “Suprema, a Mulher-Maravilha”. Era uma época em que as revistas em quadrinhos entravam na pauta dos patrulheiros da moral e dos bons costumes. Questionava-se a influência dos gibis de super-heróis nas crianças. O Superman tinha feito sua primeira aparição em 1938. O Batman surgiu um ano depois, com suas tramas de detetive e vilões com propósitos nefastos. Ambos ícones masculinos.

Marston protestava contra aqueles que demonizavam os quadrinhos e agiam com punhos machistas. Assim escreveu:

Falta ao herói masculino, por melhor que seja, as qualidades do amor materno e o carinho tão essenciais à criança normal quanto ao sopro de vida. Imagine que o ideal da criança é ser super-homem que utiliza seu poder extraordinário para ajudar os fracos. (…) É inteligente ser forte. É grandioso ser generoso. Mas é afeminado, conforme regras exclusivamente masculinas, ser carinhoso, amável, afetuoso e sedutor. “Ah, isso é coisa de menina!”, esbraveja nosso pequeno leitor de gibis. “Quem quer ser uma menina?” E aí que está: nem as meninas vão querer ser meninas enquanto nosso arquétipo feminino não tiver robustez, força e poder. (…) A solução óbvia é criar uma personagem feminina com toda a força do Superman e todo o fascínio de uma boa e bela mulher.

Com esse argumento, Marston chamou atenção do editor Maxwell Charles Gaines, que o apresentou a Shelton Mayer, editor do Superman. Depois de inúmeras reuniões para a confecção da personagem (aos moldes da supracitada), a Mulher-Maravilha chegou às páginas da All Star Comics, nº 8, em “Apresentando a Mulher-Maravilha”, no ano de 1941. Um ano depois, a super-heroína integrou a Sociedade da Justiça da América (ao lado de Superman e Batman), e o resto é história.

A Mulher-Maravilha saiu de sua ilha para ir à América defender o mundo dos homens dos próprios homens. Em 1942, os Estados Unidos entrou de cabeça na Segunda Grande Guerra, e as histórias da amazonas a colocava lutando contra os inimigos nazistas, o crime, a injustiça, os repressores.

Lapore faz um trabalho primoroso de contextualização do nascimento da heroína aos acontecimentos que enredavam o mundo e a sociedade americana, do mesmo modo que resgata (com apuro impressionante) as forças que impeliram seu criador a chegar à personagem que, hoje, é símbolo do poder feminino.

Visualmente, o livro é da mesma forma fascinante. Traz diversas ilustrações originais (em preto e branco e colorido), fotos de arquivo familiar, capas de revistas icônicas e fac-símiles recheados de curiosidades. Ainda há um índice e notas de tremendo valor para os fãs da Diana Prince (alter ego da princesa de Themyscira).

A história secreta da Mulher-Maravilha é um registro valioso para a cultura pop, que enaltece um de seus maiores ícones através do exame da existência mundana de seu criador. Um homem que foi fundamental para a luta pelos direitos da mulheres, embora encarasse o feminismo como um fetiche. Que era um canalha que forçava a esposa a aceitar o amor livre em sua própria casa, e ainda assim tinha um pensamento agudo sobre a liderança da mulher na sociedade.

Ah, sem esquecer que era também um entusiasta do bondage e do sadomasoquismo. Se não quiser corromper uma imagem da sua infância, leitor, pare por aqui. Continuou. Então me responda: de onde você acha que Marston tirou a ideia para criar o laço da verdade?

 

 

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Livro: A história secreta da Mulher-Maravilha

Editora: Best Seller

Avaliação: Muito bom

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