Um pai que exclui o filho de si

A potência da literatura de B. Kucinski está na conversão plena da matéria biográfica em matéria ficcional.

Foi assim com a premiada coletânea Você vai voltar pra mim, cujos contos são baseados em relatos que o escritor ouviu na Comissão da Verdade, e com a obra-prima K. – e sua novela derivada Os visitantes -, movidas pela prisão e pelo desaparecimento de sua irmã e de seu cunhado nos porões de tortura do regime militar brasileiro.

Mesmo Alice, romance detetivesco, ronda livremente por este plano híbrido, já que a trama tem como ponto de partida o assassinato de uma professora nas dependências da USP, ambiente que o autor, ex-professor da instituição, frequentou durante anos.

Em entrevistas, Kucinski justifica que, em virtude de seu investimento na prosa de ficção ter ocorrido depois dos 70 anos, seu foco está em escrever sobre o que só ele é capaz. Portanto Pretérito imperfeito, romance recém-lançado, é movido novamente pelos eixos que se prendem às experiências da realidade.

O livro tem início com uma carta de teor contundente, no qual o narrador principal anuncia o rompimento das relações com o filho, então com 40 anos. A razão está no germe do passado, o tal pretérito imperfeito, um período marcado por resistência e também por decepções e derrotas.

Quem assina é o pai adotivo de um filho negro, que cruzou a adolescência envolvendo-se com álcool, maconha, crack e anfetamina. Um cineasta de esquerda, casado com uma antropóloga, que decide adotar esse bebê, apesar das doenças graves (sífilis, raquitismo), domado pela incompletude de um afeto que imaginava residir na paternidade.

A narrativa, assim, recua até o fim dos anos 70, no auge da repressão militar, e vai extraindo da memória passagens nas quais reflexões e fatos se emendam para remontar uma história que o casal “pensava ser tão simples, e foi uma saga”. Os desafios da adoção (Adota-se quase sempre para ter uma família, não para dar uma família à criança), as angústias e as dores do tratamento das doenças, as pequenas clareiras de vitória e a descoberta de sensações que se autoimunizam, para o bem e para o mal.

Nosso afeto nasceu descomplicado, pois o bebê adotado é necessariamente um bebê desejado, almejado, procurado. Porém, nasceu no susto, no repente de uma adoção sem aviso prévio. E foi se tecendo de zelos e desvelos, como se cuida de uma plantinha frágil que periga não pegar. Nosso afeto foi feito de romarias quase diárias a pediatras, homeopatas e ortopedistas. E, depois, muito depois, um afeto feito de consultas a psicólogos e medo. Muito medo.

O rastilho dessa apreensão data a chegada na puberdade, quando iniciam-se os sinais de rebeldia e os sumiços. Na mirada de agente do próprio tempo, o narrador inclui a esse exame psicológico fatores sociais, a exemplo da inadequação que acomete um filho negro de pais adotivos brancos e o preconceito racial vivenciado ainda na infância.

Mas, de modo algum, qualquer dessas contrapartes de consciência é usada como prova. Não se trata de uma procura por culpas ou culpados, mas de uma jornada pelos becos sem saídas da vida, que vem e vai, sem nunca esbarrar num desfecho. A certa altura, o pai se pergunta: Teria sido possível em algum momento barrar o curso dessa história?

Talvez, não, pois a história também acontece quando se lembra dela. O confronto ao filho adulto é o resgate da sucessão de eventos que, ainda que fraturados e imprevistos, compõem o relatório de uma existência. Neste caso, a primeira suspeita do consumo de drogas, a expulsão da escola, o esforço incansável pela reabilitação (dentro e fora do Brasil), os problemas com a lei, as crises mentais e as andanças nervosas madrugadas adentro na torcida por um paradeiro.

Kucinski dá forma a uma escrita pulsante, que vasculha a natureza de seus personagens para extrair, de suas turbulências internas, a voltagem emocional que irá contaminar a linguagem e, por consequência, o engajamento do leitor. É, estruturalmente, um testemunho. Contudo o narrador não se guia somente pelos acontecimentos que vivenciou, mas também por um catálogo de leituras que interagem com o conteúdo que se dedica a explorar.

Desta maneira, o texto abre espaço para conexões literárias e comentários de caráter pedagógico. Teses e ensaios sobre psicologia infantil, escritores que se meteram a explorar os efeitos da dependência química. A mãe ganha voz, em participações pontuais, e ainda insurgem autos de processo e notícias de jornal.

O autor manipula o real sem nunca assumi-lo, mantendo a chave do enredo no incerto que se refugia na imaginação. A grandeza da obra, portanto, está exatamente na transposição dos limites que o narrador impõe. A verdade passa a ser o que se mantém intacto nesse processo vigoroso de recriação.

Pretérito imperfeito, assim, consolida-se um degrau a mais numa carreira em que temas duros e impactantes são abordados no interior de um palco ficcional cuja matriz é a mais viva realidade. Através de seus personagens, Kucinski constrói uma identidade narrativa que o torna incomparável na literatura contemporânea brasileira.

 

 

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Livro: Pretérito Imperfeito

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Excelente

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