A mira um pouco fora do alvo

A despeito da embalagem de thriller, O sniper paciente, de Arturo Pérez-Reverte, está mais para um romance de investigação que conserva uma interessante reflexão sobre a arte urbana como instrumento de intervenção social.

O novo livro do badalado autor espanhol explora o universo do grafite de rua, decodificando a idiossincrasia e o vernáculo que moldam os adeptos dessa expressão através da busca pelo paradeiro e pela identidade de um grafiteiro icônico.

Este é Sniper, venerado por seus pares e procurado pela polícia. A razão do contraste é o cruzamento de talento e ousadia. Seus trabalhos surgem de forma impactante como a ação de um francoatirador. Assim ele apareceu para o mundo, após pintar a lateral de um vagão de metrô que passava pela estação mais próxima do estádio Santiago Bernabéu, exatamente 35 minutos antes do início de uma final de campeonato entre Barcelona e Real Madrid.

Das paredes de edifícios públicos, de agências bancárias e de grandes lojas, seu portfólio clássico ainda conta com uma caveira da Gioconda com estética punk, uma Sagrada Família com um leitãozinho no lugar do menino Jesus, e a Marilyn de Warhol com caveiras substituindo os olhos e sêmen gotejando de sua boca.

Com a fama, Sniper tornou-se uma espécie de consciência coletiva que conduz pessoas a atitudes extremas. Numa dessas intervenções, o filho de um milionário despenca do alto de um prédio e a culpa da morte recai sobre o grafiteiro, que sai de maneira clandestina da Espanha, assumindo a alcunha umbrosa de fugitivo.

O apetite em se apoderar dessa história leva um editor de livros a contratar a especialista em arte urbana Alejandra Varela, conhecida como Lex, para localizar Sniper e por fim ao seu anonimato. As investigações passam pela Espanha, Portugal e Itália, envolvendo discípulos do grafiteiro, ex-companheiros de spray, policiais, críticos de artes e, até, taxistas. À medida que vai acumulando esses encontros, informações sobre o passado de Sniper e ambições diversas vão afluir em caminhos misteriosos, falsos e perigosos.

Pérez-Reverte conduz sua trama de forma episódica. Sua detetive encontra alguém, a conversa flui, encerra-se e pula para o capítulo seguinte, onde ocorre o mesmo. É um texto linear, mesmo quando recua no tempo, pois o trânsito se faz através de diálogos. Os personagens cabem ao propósito do enredo, servindo de degraus para se galgar o encontro final. Salvo a protagonista, nenhum deles é aprofundado além de sua descrição física.

O autor espanhol, por outro lado, faz um trabalho eficaz ao salpicar a narrativa com termos e códigos particulares do universo do grafite. Esse recurso gera estranheza ao mesmo tempo que veracidade. A pesquisa também se encaixa bem no plano ficcional, colocada como se descoberta pela investigadora e, naturalmente, apresentada ao leitor.

Nos capítulos finais, um embate mental provoca uma discussão sobre arte de rua versus arte de galeria que, descontando alguns lugares-comuns, levanta questões intrigantes: a validade do artista de rua, o quanto a liberdade é fundamental para a criação, o poder do perigo como forma de dignificar a arte. A certa altura, há uma sentença:

A arte moderna não é cultura, é só chilique social. É uma enorme mentira, uma ficção para privilegiados milionários e para idiotas, e muitas vezes para privilegiados milionários idiotas. É um comércio e uma mentira absoluta.

O sniper paciente encontra boas soluções reflexivas para seu tema, porém perde força pela falta de urgência em sua condução. Para o thriller que tenta ser, é paciente demais.

 

 

***

 

 

Livro: O sniper paciente

Editora: Record

Avaliação: Bom

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