Uma jornada pelo íntimo da noite

Enquanto os dentes, de Carlos Eduardo Pereira, tem sua concepção narrativa livremente baseada em Ulysses, de James Joyce.

Assim como Leopold Bloom, o solene personagem criado pelo escritor irlandês, o protagonista do romance de estreia do autor carioca cumpre uma jornada ao longo de um dia, ao deixar sua casa e chegar a seu destino à noite. Também igual a Bloom, a incursão de Antônio será demarcada por encontros e obstáculos.

Obstáculo, de fato, é a chave do enredo. Antônio é cadeirante, e sua Dublin é a cidade do Rio de Janeiro desfigurada por uma recente série de modificações urbanas e, ainda assim (ou mesmo assim), completamente inadaptada para quem precisa se locomover sobre cadeira de rodas.

Isso posto, a deflagração cômica joyceana, a ironia crítica, é decantada ao ponto de restar somente uma crítica dura e abrasiva sobre a experiência real da vida.

Ao contrário dos conhecidos beberrões que Bloom encontra enfurnados em pubs, Antônio se depara com um ex-colega do tempo da Escola Nacional da Armada, agora um mendigo alucinado de álcool e de fome, que declara estar nesse estado miserável por gosto próprio.

Antônio, aliás, não está a passeio, ao rufo de introibo ad altare Dei. Por falta de dinheiro, acabou de deixar o apartamento alugado e não finalizará seu arco aventuresco nos braços de nenhuma Molly Bloom. Volta para a casa dos pais, a casa de sua infância, a qual não visita faz vinte anos.

O motivo é o pai, um oficial da Marinha, a quem chama de Comandante. Um militar forjado na ditadura, tirano, que anulou sua esposa ao cumprimento dos afazeres domésticos, e tentou se valer de sua autoridade para moldar o destino do filho. As escolhas de Antônio são afrontas ao pai. Ele não diz, mas certamente pensa.

Stephen Dedalus, o companheiro de Bloom em sua odisseia, neste caso, seria a consciência de Antônio.

Enquanto se protege da chuva sob a cobertura de uma banca de jornal, dirige-se até a estação das barcas, entra na embarcação, faz a viagem e circula pela rua (com uma cadeira de rodas velha, pois a importada quebrou e ele não tem condição de comprar outra), a todo instante o relato do presente empreende um diálogo com o passado.

Pereira dá forma à sua trama a partir de observações, abstrações e lembranças através das quais seu personagem percorre da infância à fase adulta, espiando dentro de si com a mesma força que registra cenas do ambiente ao redor. Esse ir e vir incessante no tempo traz a lume acontecimentos elementares, a exemplo do dia do acidente que lhe tirou os movimentos das pernas, da fuga da escola militar, da briga derradeira com o pai e do encontro que determinou sua orientação sexual.

Embora fragmentada, a narrativa é conduzida com fluidez em função da linguagem rica, de frases bem ordenadas. Quando escapa para a história mental, o texto se mune de imaginação, de modo a compor a psicologia e os espaços de atuação e de inteiração de seu protagonista. Ao ser expositivo, ganha ares de crônica.

Há claramente uma intenção denunciatória sob o leito ficcional, em relação ao despreparo do ambiente urbano e do transporte público (incluindo aí as pessoas) para com o cadeirante. O autor trabalha o texto com o intuito de colocar o leitor sentado na cadeira de rodas, de fazer com que sinta a limitação do corpo e a opressão social.

E aí está um dos pontos altos do livro: ao pleitear tal grau de empatia, a grande maioria dos autores utilizaria como recurso a narração em primeira pessoa. Pereira não o faz, e tem uma razão. A narração em terceira pessoa amplia a visão da cena, capturando não só a ação corrente, mas a reação de quem está em volta.

É um protesto que, em momento algum, tropeça em sua ânsia de protestar. O tema é totalmente incorporado à ficção, pois é a matriz da ficção.

Pereira descreve, de forma prática, como se acomodar na cadeira, pois a história concede essa explicação. Do mesmo modo, não se apieda de seu protagonista. Apesar da traumaticidade que marca a sua vida, são justamente seus conflitos, seus erros e seus autoenganos que dão escopo para discutir uma violência que se agrava tanto na rua quanto no ambiente familiar.

Em sua travessia da sombra à alta escuridão, Enquanto os dentes ilumina uma realidade que não tem acesso ao espaço dos romances ficcionais.

 

 

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Livro: Enquanto os dentes

Editora: Todavia

Avaliação: Muito bom

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