Vozes de uma incessante saga familiar

Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense, é dividido em três partes, respectivamente imantadas por um passado reconstruído pela memória, um presente que se amolda às consequências desse passado e uma decisão no presente motivada pela culpa que abrange toda uma vida.

Centrado num núcleo familiar constituído por sete irmãos, o romance do autor gaúcho dá voz ativa aos três mais novos, alternando-os em capítulos inteiros de extensões gradativamente menores, assim como são a força e a importância para a história de cada um deles.

O primeiro narrador é Antônio, que volta a um tempo em que tinha oito anos e residia numa colônia rural no sul do Brasil. Passavam-se os anos 1970.

Era um período marcado pela autoridade patriarcal, no qual os filhos eram considerados riqueza, pois serviam de mão de obra barata. Os homens crescidos trabalhavam na enxada, as mulheres tocavam a casa. Os mais novos, inocentes, precisavam sobreviver – só um não conseguiu. E nós, os do meio, fazíamos coisas menores, recorda o narrador.

Com a morte recente da mãe no parto, a organização das tarefas e o cumprimento das funções básicas passam a ser ditadas pelo pai, um homem rude, de silêncios longos, e por Geni, a filha mais velha. Completam o álbum, em ordem de nascimento, Maria Francesca, os gêmeos Estevam e Ferrucio, Valentina e o bebê Pedro.

Por conta das idades próximas, Antônio tem Valentina como confidente e ambos revezam-se no cuidado do caçula. O fato de estar nessa posição menos onerosa lhe permite operar como espião dentro da família, registrando o encadear do cotidiano na matriz da memória. São esses arquivos que irá remexer na composição do relato pretérito, colocando-se como narrador e ao mesmo tempo agente desse passado, em que se conserva a atitude infantil sob a articulação da consciência adulta.

Isso explica – em grande parte – o porquê de um menino de oito anos usar termos complexos em sua apreensão do ambiente e dos acontecimentos.

Antônio, portanto, vai reexplorando as frestas daquela realidade dura e as relações entre os irmãos marcadas por ciúmes velados, amores reprimidos, descobertas, fatalidades e fraturas, à medida que ele próprio descreve sua formação entre a crueza da sua rotina e os momentos em que passa na casa do amigo Artur, o filho da professora, que goza das benesses da classe média. São os contrastes que irão forjar seu entendimento, que irão transformar sua experiência de vida numa fonte de emoções contraditórias.

Nessa primeira parte, Brasiliense faz um trabalho impecável, da composição de mundo e de personagens ao estilo terso e ordenado da linguagem. Se parasse por aí e entregasse uma novela, seria, sem sombra de dúvida, um dos melhores livros desse ano.

O único porém ficaria a cargo de uma escolha estética. Ao longo da leitura, notas de rodapé brotam no texto; o que funciona, de maneira curiosa, como extensões desse universo, contudo prejudica, e muito!, a fluidez do texto. A maioria, inclusive, traz informações totalmente dispensáveis.

Daí tem início a segunda parte. A narração cabe agora a Valentina, numa fase adulta. O romance também se transforma. Esvazia-se da potência dramática de saga familiar, da combustão de aprendizado e tragédia, para adotar um tom prosaico de diário, um catálogo de correspondências destinada a Antônio.

Nesses relatos com aspecto epistolar, Valentina tenta demover o irmão de um ato, resgatando instantes do passado para expor suas consequências na vida de todos eles. O que cada um se tornou, quem conseguiu se salvar daquele ambiente e quem permaneceu na colônia, por impotência.

Brasiliense consegue articular algumas surpresas e transfundir, com habilidade, ações pretéritas a fatos atuais. No entanto, a motivação real das cartas se dilui na exposição banal das angústias e das inseguranças da personagem em relação aos filhos, ao marido, à aparência do seu corpo e aos próprios imperativos.

São capítulos de voltagem diferentes, peças que não se encadeiam com naturalidade.

A terceira parte, neste contexto, é a mais mal-resolvida. Traz o testemunho de Pedro, atribuindo à uma escolha de vida a culpa que, em passagem alguma do livro, qualquer dos integrantes da família atribuiu a ele. Não agrega. Ao contrário, fica parecendo que escapou algo.

Roupas sujas brilha, de forma admirável, em sua varredura memorialista, mas vai perdendo potência a cada um de seus saltos temporais.

 

 

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Livro: Roupas sujas

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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