Análise picaresca de um crime

* N. do resenhista: não há a possibilidade de se escrever essa crítica sem spoiler. Está logo na primeira frase. O spoiler é indispensável para o resultado da avaliação.

 

É fundamental se desconstruir toda a prenoção instituída da obra de Patrícia Melo para assimilar de fato o universo de Gog Magog. Repito: é fundamental.

Premiada escritora de romances de crime, seu novo livro também trata de um crime, contudo não é a investigação que mobiliza as hastes de seu enredo.

Patrícia parte do seu campo habitual de colheita, para extrair dali a matéria com o qual irá construir uma picardia.

Numa leitura mais subjetiva, fica a impressão de que a autora tripudia sobre o gênero que a consagrou, com o propósito de explicitar o quanto o mundo se tornou um ringue de ódios ululantes, de como nos tornamos atores de um palco onde a realidade é, a todo momento, vazada por um absurdo que neutralizou totalmente a noção de absurdo.

O título tem uma sorte de significações que vão da tradição cristã ao folclore britânico. Um monstro que se alimenta de carne humana; uma cepa, como escreveu o grego Heródoto, de bárbaros que bebiam o sangue de seus inimigos em crânios escalpados; a representação fiel do Anticristo (em seu fulgor de questionamentos).

O quanto de demoníaco aflora em cada um de nós, por meio de nossos pensamentos e atitudes? Será que somos satânicos por natureza, na prática de pequenas ações e reações, em atos corruptíveis e em quebras de lei, ou é a sociedade (ou melhor, o convívio social) que nos torna satânicos a um julgamento coletivo?

Essas indagações são concentradas na caracterização do protagonista, um professor de biologia de escola pública em pé de guerra com o vizinho do apartamento de cima. Tal qual o personagem do romance O silencieiro, do magistral Antonio Di Benedetto, ele se envolve num drama enlouquecedor por não suporta o ruído do mundo.

O falatório ao telefone, a música, os passos ecoando pelo teto o irritam brutalmente. A princípio restrito às reclamações, ele bombardeia a esposa, uma enfermeira que tem o hábito de tirar fotos no celular de pacientes em estado terminal, de maneira contumaz e nociva.

A passividade, porém, chega ao limite, e o atrito com o vizinho descamba para a tragédia, cujas consequências irá desbaratar sua vida, seu casamento e sua saúde mental.

Em certos trechos, aliás, a própria narrativa se contamina com uma atmosfera de devaneio. A autora joga com essa descomposição (por um motivo que, ao fim, será apresentado), pressionando o leitor a duvidar do que está presenciando, sobretudo em função de conduzir o texto em primeira pessoa.

Pela perspectiva do que o protagonista vê e decodifica do ambiente à sua volta, o fluxo de consciência e o discurso se unificam, trazendo à tona comentários misóginos, racistas e homofóbicos. A filha de sua esposa, que o trata carinhosamente como pai, é lésbica, e seu entendimento sobre o fato é dos mais perversos.

Não é gratuito, tampouco aceitável (levando-se em conta um motivo que, ao fim, será apresentado). Entretanto essa ambiguidade corrosiva se estabelece, e é com ela que Patrícia se propõe a trabalhar. O ataque que apreende uma justificativa, os graus de corrupção e o sentido de gravidade, a impunidade e o valor da condenação.

É menos criminoso o político que rouba dos cofres públicos comparado ao indivíduo que mata o outro durante um surto psicótico?

A construção narrativa é cercada também de muitos riscos. Onomatopeias das mais irritantes fervilham aqui e acolá, com o intuito de trazer ao leitor o mesmo tormento sensorial que acomete o narrador. Um arsenal de frases de efeito e clichês são disparados, tão constrangedores que chegam a tirar a atenção da história.

Mas aí chega a parte final e a percepção de picardia se sobressai, contextualizada por diálogos absurdos e, até mesmo, uma tese jurídica apoiada num episódio de Pokemón.

Gog Magog é um livro que precisa ser entendido como um todo, antes de qualquer avaliação. Só assim se terá impulso para atravessar as camadas rumo ao seu real objetivo.

 

 

***

 

 

Livro: Gog Magog

Editora: Rocco

Avaliação: Bom

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