Uma escrita híbrida e autoral

O peso do pássaro morto, de Aline Bei, estabelece alguns desafios para o leitor e para si próprio.

No que diz respeito à leitura, o livro é estruturado na forma de longos poemas, embora tenha um conceito bem definido de romance. Um híbrido, por assim ser, constituído de frases que se sucedem harmoniosamente ou de maneira desconjuntada, ora em vez interpostas por pequenos focos de diálogos e por uma redação incidental.

O enredo também cobra um compromisso. Acompanha uma mulher dos oito aos 52 anos, através de capítulos breves que têm a tarefa de concentrar toda a potência dos momentos chaves de uma vida. Ou seja, é preciso que o impacto de um acontecimento em cada fase funcione como o dispositivo condutor para que a história empreenda veracidade no processo físico e intelectual de formação e de transformação da protagonista.

E aí que está o grande teste da autora: imprimir diferentes timbres de voz, diferentes motivações e visões de mundo, a uma personagem que começa menina, avança pela adolescência, chega à idade adulta, torna-se balzaquiana e, por fim, deixa para trás meio século de vida. Todo o trajeto construído unicamente através do discurso.

A boa notícia é que Aline Bei se sai muito bem em todos os desafios supracitados; sobretudo, ao se levar em conta de que se trata de um livro de estreia. As experimentações gradualmente se convertem em identidade, e os recursos formais engrandecem o texto, escapando da afeição canhestra de meras muletas narrativas.

Há muitos pontos altos, por sinal. A parte que se concentra na infância e na juventude é magnífica. Impressiona a capacidade da autora de imergir o leitor num universo delineado por doçura e sensibilidade, contrapondo atitudes e preocupações pueris com acontecimentos trágicos e incontornáveis.

Sem querer estragar qualquer surpresa, a personagem-narradora sofre o baque de um fato aos oitos anos, que irá determinar a maneira de lidar com a amizade, o sexo, a maternidade e a solidão. É primoroso como Bei converte um animal de símbolo de morte numa época, para, em outro tempo, em símbolo de fraternidade.

Os contrastes impulsionam um sentido de dualidade nas transições de temas como a velhice e a infância, a sabedoria e a inocência, a dor e a alegria, o apego e o abandono, a fidelidade e o vazio. Em muitos desses casos, o manejo com as palavras descobre frases mágicas capazes de rutilar beleza em ocasiões sombrias.

Destaque para o trecho do encontro entre a protagonista e um cão num posto de gasolina, que é de uma sensibilidade de observação e de um lirismo descritivo ímpares.

Do meio para o fim, a narrativa vai perdendo ritmo e se tornando autoindutiva. O que pode ser explicado pela condição em que se acha a personagem, porém a mudança é notável. O mesmo ocorre com capítulos inteiros que são plasticamente poemas, neutralizando todo o efeito fascinante do hibridismo de gênero.

Contudo, são mínimos desconcertos num livro que se consagra por transformar experimentalismo numa obra autoral. A estreia de Aline Bei cria uma urgência para saber o que a autora vai escrever em seguida.

 

 

***

 

 

Livro: O peso do pássaro morto

Editora: Nós

Avaliação: Muito Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s