Versos proibidos para a infância

Ficou gravada no imaginário coletivo a interpretação infantil dos contos de fadas que transmitem valores morais e mensagens de superação.

Suas versões originais, no entanto, estão bem longe desse teor edulcorado.

Tomemos a história de Branca de Neve como exemplo. Publicada pelos Irmãos Grimm, em idos de 1800, na coletânea intitulada Contos de fadas para crianças e adultos, a narrativa tem sugestão de canibalismo, tentativa de assassinato, asfixia e uma dança mortal.

Beijo apaixonado e bichinhos fofinhos estão fora de cogitação.

O poema “Branca envelhece na neve”, de Adriane Garcia, se filia muito mais à tradição das fábulas medievais que à perfumada visão hollywoodiana sobre a princesa alva de lábios de sangue. Os versos descrevem uma donzela estirada num caixão, sendo bolinada e penetrada durante anos por homens, que sugestivamente praticam necrofilia.

O corpo duro não repõe/Fluídos/Não há rosto angelical do que foi/Outrora://Cada vez mais é mulher/No espelho.

Fábulas para adulto perder o sono traz, em seu conceito estético, um exercício de reconfiguração dos contos de fadas e das conhecidas fábulas de Esopo e La Fontaine. A autora mineira destaca as camadas coloridas dos textos, expondo seus núcleos como se buscasse subvertê-los, ainda que efetivamente revele suas reais naturezas.

Desse modo, os poemas se apropriam de personagens hoje alocados no universo infantil, a exemplo de O Patinho Feio, A Pequena Sereia e A Gata Borralheira, incorporando as características e motivações de suas histórias a um humor cáustico, a um veludo de fina melancolia e a um vestígio desviante.

É o caso de João e Maria e sua fieira de migalhas que, aqui, não é devorada pelos pássaros da floresta.

Por distribuirmos migalhas/Seguiram-nos/Todos os miseráveis/Famintos depois de comerem/Os passarinhos/E quando assustamos/Não tínhamos mais pão/Nem caminho.

Outros poemas apostam na descaracterização, aproximando suas provocações da paródia. Bela Acordada é a antítese da Bela Adormecida, a moça que “não adormeceu por cem anos” e teceu “na roca quebrada” a própria “camisa de força”. A princesa e a ervilha converte o elemento revelador num incômodo “calo no dedo”.

Adriane trabalha com uma versificação sem rimas, com estrofes de variadas extensões, centradas no efeito de surpreender o leitor com um desfecho impactante ou encantador. São frases bem ordenadas, num processo de lapidação de palavra a palavra, que articula bem as figuras de linguagem e as matizes abstratas.

Em alguns casos, lembram os sonetos do poetinha Vinicius de Moraes. Drummond também empresta algumas de suas marcações flexivas.

Fora do contexto da fabulação, poemas flertam com um enquadramento mais particular, do consórcio do poeta com sua escrita, mas sem nunca se exilar do cosmo mágico. “Sob os dosséis” manobra a percepção de realidade e imaginação, sobrepondo o impossível do desejo com uma mentira acolhedora.

Mas toda noite morríamos, toda noite insistíamos/Mais um pouco:/Porque não fomos/Felizes para sempre.

Com seus versos proibidos para a infância, Adriane Garcia venceu o Prêmio de Literatura do Paraná.

 

 

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Livro: Fábulas para adulto perder o sono

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Bom

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