A memória que varre um continente

Com uma prosa imponente e elegante, Nélida Piñon transita da câmara das experiências pessoais ao moinho da criação literária em Filhos da América. Nos 28 ensaios que compõem a coletânea, a autora usa da própria formação intelectual como chave de acesso ao continente ibero-americano no magma de sua história, cultura, signos e mitos.

Tal qual em Baú de ossos, do mineiro Pedro Nava, o discurso da memória traga ao seu eixo de reconstituição a genealogia dos antepassados e os primeiros anos da autora. Colocando-se na dupla posição de testemunha e agente de seu tempo, Nélida se lança a investigar os fatores que desencadearam e moldaram o seu fazer literário.

Esse exercício de reflexão se mostra mais vigoroso nos formidáveis “Heródoto e a aprendiz Nélida” e “A épica do coração”, que se complanam. Dar a mão a seu espectro infantil é a largada para a narradora incursionar pelas lembranças mais tenras, identificando a origem de suas referências e paixão pela leitura que serão a matéria da construção ficcional. Como revela, a certa altura, o verbo e a imaginação lhe servem de emblema para percorrer o mundo e desvendar o espaço dramático da própria vida.

Desse modo, a realidade e a ficção se compactuam para decifrar os aspectos histórico-culturais que constituem a América e em qual parte dessa poeira de atritos e fusões a autora descortina os alicerces de sua hereditariedade galega. O texto coleia entre a margem do secreto particular e a do saber coletivo, carregando num fluxo de influências e de acontecimentos, de “Tia Benta, de Monteiro Lobato, até os Três Mosqueteiros”, a verdade sobre o que a impede de ser qualquer outra coisa que não escritora.

Machado de Assis aparece como deus protetor de suas narrativas. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, Nélida demonstra reverência a seu mais célebre fundador, da mesma maneira que defende calorosamente a instituição. A figura radiosa de Machado frequenta o livro de ponta a ponta, destacando-se em dois ensaios que ora traçam um perfil do Bruxo do Cosme Velho, ora analisam suas obras, ora reinventa a cidade do Rio através do olhar machadiano.

Outros textos recendem um teor saboroso de relato pessoal e de leve caráter biográfico, rememorando encontros e laços de amizade com escritores do quilate de Clarice Lispector e Julio Cortázar (com quem, invejavelmente para este resenhista, a autora teve a companhia numa viagem). Há também ensaios dedicados a José Maria Arguedas, fundamental autor peruano, ao argentino Tomás Eloy Martínez e à atriz Marília Pêra. São casos em que a carga sentimental impulsiona a condução.

O Brasil se mostra um colosso a ser desvendado em suas veias abertas para a soma de raças e tradições, a babel que escoa pelos trilhos do destino e da criação de uma arte que bebe de muitas fontes para ser única. Dessas transições, a autora elege a língua como soberana, a marca de um povo entravado na inescapável senda de vida e de morte.

Como escritores brasileiros, nossas biografias literárias se dramatizam, fazem-se porosas e, sobretudo, vulneráveis, ante o impacto da realidade. Ante a certeza de que a nossa história secreta – a melhor de todas as histórias – nos cobra a cada dia a interpretação a que a literatura deve corresponder. (…) A verdade é que há uma sintaxe política e biográfica por trás das decisões estéticas. O estético tende a sucumbir ao clamor orgânico da língua e dos sentimentos deste povo que faz a escrita pulsar através do escritor.

Por meio de sua escrita, Nélida Piñon se conecta ao espírito do tempo e aos autores que incorporam à literatura latino-americana um poder continental.

 

 

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Livro: Filhos da América

Editora: Record

Avaliação: Muito Bom

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