A arte de correr pegando fogo

Há um senso transgressor envolvendo toda a concepção de Morri por educação, de Nathalie Lourenço.

Separados em dois departamentos – “Engole o riso” e “Engole o choro” -, os contos do livro de estreia autora da paulista nunca condicionam seus enredos ao conjunto em que estão inseridos. Conter o riso não significa naturalmente estancá-lo, e sim estimular algo de cômico numa circunstância trágica. O expediente inverso ocorre com o choro.

Nathalie explora a faceta humana que se embaralha com as emoções, não por ser maldosa ou tola, mas por ser essencialmente humana. Um exercício rápido é pensarmos em como rimos de maneira involuntária do absurdo e em como choramos por um experiência que, de tão arrebatadora, desencadeia uma sensação profunda de vazio.

“Dentes”, o conto que abre o livro, é um exemplo perfeito do primeiro caso. Um instrutor de escalada recebe a visita inesperada de uma amiga que quase morreu numa de suas expedições. Depois de 48 horas perdida no cume da montanha, o frio devorou dois de seus dedos da mão, seis dos pés, a ponta do nariz, os lábios e as orelhas.

A autora detalhe a reação do personagem à aparência grotesca da amiga, como todos ficamos incontrolavelmente vidrados quando nos deparamos com um aleijão. O constrangimento vai beirando o ridículo, que causa um tipo de comicidade errada, até o desfecho estapafúrdio.

“Mecenas”, que vem em seguida, traça um paralelo entre a arte que se inspira no brutesco e o brutesco que produz um tipo de arte. Um pintora em decadência artística e física se envolve com um morador de rua que pinta, criando uma troca de ofertas em nada leal. “Um comprimido antes de dormir”consegue dar forma a uma nuance de ternura em meio a uma situação sufocante para preparar um fim que denota afetuosidade ao mesmo tempo que desespero.

Como visto, não há qualquer indício de coesão temática na costura da antologia. Nathalie se mostra uma autora em formação, experimentando inúmeras formas e estilos. A mesma sondagem é aplicada nos gêneros. “Sede” tem origem na ficção científica distópica, enquanto “O lobo” tem um quê de terror onírico.

“A arte de correr pegando fogo”, um dos melhores textos, conclui um pacto suicida com uma dose de escárnio. E aqui está a maior qualidade do livro: transitar do ridículo ao tragicômico, do absurdo ao grotesco, sem amenizar quaisquer de seus impactos. A autora notadamente manda o politicamente correto às favas.

A parte final demonstra uma maior irregularidade, sobretudo em narrativas que parecem mais preocupadas com suas finalidades que com o desenvolvimento de enredo. Essa precariedade é mais notável, pois justamente se trata de um livro que tem brilhos esparsos e não uma consagração de maneira integral.

Em sua estreia, Nathalie mostra-se uma autora promissora nos limites fechados de cada conto.

 

 

***

 

 

Livro: Morri por educação

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Bom

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