Recortes ficcionais da violência

Na antecedência dos contos de Aí eu fiquei sem esse filho, a atriz e escritora Carla Bessa informa que os textos contidos naquela antologia “são mera ficção e foram criados a partir de artigos de jornais e relatos pessoais”. No entanto, não é a apropriação da verdade pela imaginação que torna suas narrativas instigantes, e sim o que há de ambíguo em suas composições, o momento indefinido em que a autora abandonou o real e passou a se guiar unicamente pela própria inventividade.

Isso se dá pela brevidade dos recortes que lhe servem de inspiração. “Após o ataque, a mulher”, por exemplo, é precedido pela seguinte nota:

Crime brutal choca moradores: “Ex-marido ateou fogo na ex-companheira, com quem tinha três filhos. Crime aconteceu em -.”

A partir da notícia, Bessa dá voz a uma mulher humilde e religiosa que rememora o passado ao lado de um homem violento, enquanto tem o corpo ensopado por gasolina. Sem a origem fiel do fato, o leitor é seduzido pelo que o personagem lhe revela e não o que é reinterpretado dos detalhes da história da vítima do crime.

Aí está, aliás, a maior qualidade da autora: encontrar a flexão adequada para cada protagonista de suas tramas. Centrados no universo da marginalidade e da violência, os contos são narrados por menores infratores, moradores de rua, mães de filhos assassinados, suicidas, alienados e demais vetores da miséria humana.

O poder de veracidade decorre do uso de uma linguagem coloquial e ágil, pontuada por gírias, expressões populares e onomatopeias. Outra característica formal é articular uma narrativa fragmentada, de modo a refletir no texto a dicção desbaratada de seus personagens.

Desse modo, alguns contos apresentam uma estrutura experimental, que emula do roteiro de teatro à designação sintática dos dicionários. Em “, Deixando para trás um rastro de lama e destruição”, baseado no fato insólito de cobras e jacarés tomarem as ruas de uma cidade após uma enchente, a alternância entre frases avulsas e diálogos aleatórios retratam as consequências físicas e psicológicas da tragédia natural na rotina dos moradores.

Bessa se vale desse contexto modulado, na maioria das vezes, por desvarios e transtornos para tocar em discussões a exemplo da banalidade da violência, da desigualdade social, do alienamento da religião e da ceifa prematura da infância. Dentre os inúmeros temas, este último percorre o livro do começo ao fim, conduzindo histórias de meninos que viram os pais sendo mortos, que morreram a serviço do tráfico, que ingressaram na criminalidade em função da ausência afetiva ou a do Estado.

Nem todos os contos, porém, organizam-se através da descrição dos artigos que os inspiraram. “A babá”, que parte da notícia sobre uma doméstica que despencou do alto do prédio enquanto limpava uma janela, desloca a fatalidade para uma situação envolvendo uma carta proibida e um relacionamento obsessivo.

O conto-título mescla uma sequência de atos incidentais com o relato de uma mãe que conflui violência doméstica e uso de drogas para explicar a perda do filho. A voz machucada traz um tom de alheamento, de quem convive há tanto tempo com a brutalidade que expressa seu relato de maneira frugal.

Na parcela de mundo registrada por Bessa, a violência deforma, a droga destrói e a religião manipula em níveis iguais.

 

 

***

 

 

Livro: Aí eu fiquei sem esse filho

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Bom

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