No vasto cume da noite

A certa altura de Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto, me peguei envolvido por uma força misteriosa que me chamava para O livro do desassossego, de Fernando Pessoa. Ao fim da leitura, saquei da prateleira a obra-prima do escritor português e me deparei, logo no começo, com um trecho que foi sendo acordado em mim pelos versos da autora mineira: Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada.

Daí me dei conta do que me enredava de um livro a outro: a modulação da voz de seus narradores. Assim como Bernardo Soares, o heterônimo de Pessoa que decompõe sua elucidação de mundo em fragmentos desatarraxados a tábuas de tempo e de espaço, o eu que conduz o fluxo lírico da estreia de Fernanda Fatureto avança por estágios psíquicos, sensoriais e de conhecimento, para expressar, em estrofes fortemente encadeadas, a conversão do mundo exterior em vivência interna.

De fato, em função de sua estrutura e condução, a antologia se afigura uma saga poética. Um narrador em ininterrupto movimento, cumprindo uma travessia íntima, uma jornada que se utiliza de referências e percepções na qualidade de bússola para um caminho que existe a partir de suas próprias representações. O que sente e o que observa são resultados da experiência de interiorizar sua procura por identidade, de tentar alcançar o espírito supremo em meio a uma escuridão insuperável.

Ensaio tropeço a não ser no sonho,/Este me guarda enquanto/Ciclo infinito indo e vindo sobre o Nada.

Os poemas, assim, são organizados de forma a alcançar um ritmo narrativo marcado pelo espontâneo da oralidade, que raramente descobre uma rima, porém, quando isso ocorre, ilumina todo o conjunto. Tal efeito é obtido por conta do cuidado na escolha das palavras, pela habilidade admirável de transfundir passagens da existência real com pulsões subjetivas, constituindo versos que, ora em vez, irradiam o apelo de uma frase de efeito, sem que a praxe comprometa o poder de beleza e o vigor imagético.

Toda ausência é ruína e escombro ante o esquecimento.

A autora ainda recorre aos próprios espectros de leitura para consubstanciar seu texto, evocando menções que vão dos filósofos gregos aos magos hispano-americanos. Influenciada diretamente por essa diversidade, os poemas de Fernanda Fatureto se sintonizam, de maneira harmônica, do modernismo à poesia marginal de Waly Salomão.

Do naufrágio que vejo/Disperso em neblinas./Do úmido frio do tempo./Levar a cabo a vida/No oceano da memória:/Não há ilha de edição/Que me habite.

Ao fim desse primeiro trecho de sua jornada, Bernardo Soares reflete: Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também. Ensaios para a queda, ao contrário, deve ser lido e escrito no tempo que se perpetua como um debute que expõe uma maturidade impressionante.

 

 

***

 

 

Livro: Ensaios para a queda

Editora: Penalux

Avaliação: Excelente

2 comentários sobre “No vasto cume da noite

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s