Um estudo sobre a origem do mal

O peso do coração de um homem, de Micheliny Verunschk, é o segundo volume da trilogia da violência iniciada, em 2016, com Aqui, no coração do inferno. Tomando como princípio a estrutura e o foco narrativo adotados pela autora, é notadamente um livro de transição.

Dividido em duas partes, a primeira reconstrói a origem do assassino juvenil, apresentado no primeiro volume. Ao passo que a segunda dá voz novamente a Laura, a personagem que conduz, da adolescência à idade adulta, a história de maldades e de descobertas do romance anterior.

De um volume a outro, Micheliny carrega o tom na aridez da linguagem inflamada por um timbre trôpego e regionalista, com o qual dá expressividade a um universo de seres miseravelmente humanos, que moldam seus destinos através da brutalidade e do vazio de emoções.

O parágrafo inicial é irretocável no grau de intensidade e de absorção que propõe. Nos confins do sertão, uma família tem a casa invadida por um grupo de matadores.

A cena, descrita num crescendo, é acachapante. São poupados apenas os dois filhos do casal, integrados ao bando que age sob a ordem de uma matriarca felina.

Ali, descobre-se que os irmãos cresceram num ambiente tão rústico, que não tinham sequer nome. O mais velho é batizado de Cristovão, e, o caçula, de Gonçalo.

A convivência forçada com os algozes de seus pais irá definir seus processos de formação. Enquanto Gonçalo se introverte, Cristovão gradualmente apresenta uma psicologia deturpada que, do desejo assassino à fúria da libido, engorda o mal que irá controlar seus atos futuros.

O livro, então, corta para Laura, na vida adulta, assombrada pelas circunstâncias que marcaram sua adolescência. A descoberta da verdade sobre a morte da mãe, o fantasma do relacionamento com o o assassino Cristovão e o confronto com o pai. Há algumas revelações. Mas os grandes mistérios permanecem insolúveis.

Nitidamente, a autora guardou muito da história para o último livro, e isso o torna mais fraco que o anterior.

Outro ponto negativo é a total falta de informação de que se trata do segundo volume de uma trilogia. Lida, de maneira independente, a primeira parte consegue até entregar uma trama fechada de origem. Porém, sem o conhecimento da história anterior, o leitor desavisado ficará completamente perdido com a ascensão da segunda parte.

Contra esses pecados, todavia, impõe-se a qualidade da escrita de Micheliny, uma escritora com o talento raro de trabalhar com o silêncio e a habilidade de compor um mundo que adquire novas contornos à medida que seus cantos de sombras vão sendo iluminados.

O peso do coração de um homem é o intermédio para o que promete ser um fim abrasador. Que venha, então, a terceira parte!

 

 

***

 

 

Livro: O peso do coração de um homem

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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