Pelas pegadas dos papas do gênero

Cinquenta anos depois do chamado boom do realismo mágico, o maior desafio para o autor que decide se embrenhar no gênero é recender frescor de suas histórias.

O carioca Anderson Henrique parece sacar isso, e opta pelo caminho contrário em Chame como quiser: pisar sobre as pegadas dos papas da literatura fantástica, trabalhando com um conteúdo temático recauchutado, porém encontrando boas saídas em contos de caráter reverenciais.

Embora caiba ao crítico se colocar numa posição em que consiga identificar o reflexo e a origem, aqui o autor facilita. Basta saltar para os agradecimentos finais, que todas as (ou a maioria das) influências estão claramente anunciadas: Murilo Rubião, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez, entre outras.

Durante a leitura, veio-me à memória a coletânea Deixe o quarto como está, do gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, sobretudo pelos assuntos de inspiração e pela subversão da forma convencional do texto, a exemplo do que ocorre num dos contos de Henrique. Bettega não é citado por Henrique, mas deve ser lido mesmo assim.

De volta à antologia, Chame como quiser se inicia com “Invisível”, uma narrativa de frases curtas e ritmo ágil, quase métrico, que acompanha o dia de um adolescente que vai desaparecendo. Logo depois, o ótimo “Máscaras” trata de um fenômeno social em que as pessoas passam a usar máscaras, através do qual o autor manipula o teor metafórico para representar as personalidades dos personagens. “O jardim” adota uma atmosfera onírica/fabular, num pacto de amor e de morte.

A partir daí, vêm à tona alguns descompassos. O exercício de gênero começa a ser minado por contos que não trazem qualquer aspecto fantástico, dispensando a singularidade estética e o modelo estilístico até então proclamado. Em dois casos, inclusive, as narrativas adotam uma destoante e frágil dicção regionalista.

As escolhas constituem a percepção de um autor que ainda tateia pelo ofício da escrita, em busca de uma voz própria, em pleno processo de desenvolvimento.

Sinal disso, é que o livro se encerra com seu melhor texto. “Multiplicai” resgata o drama do sujeito comum envolvido numa circunstância insólita, a de reproduzir sósias de si de maneira espontânea. A primeira frase já vale a leitura: “A população mundial era de aproximadamente 7 bilhões de indivíduos quando comecei a me multiplicar”.

Henrique demonstra ter as ferramentas do ofício da escrita, mas ainda titubeia em seus manuseios. Quando se trabalha com literatura de gênero, essa falta de compromisso com as particularidades adquire uma relevância abrasadora.

 

 

***

 

 

Livro: Chame como quiser

Editora: Penalux

Avaliação: Regular

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s