Um drama simbólico sobre redenção

É preciso, antes de mais nada, distinguir o simbolismo histórico do valor literário em Silas Marner, o tecelão de Raveloe.

Publicado em 1861, pelo romancista George Eliot, é de fato o terceiro livro escrito pela inglesa Mary Ann Evans sob o pseudônimo masculino.

Jornalista e tradutora da era vitoriana, Evans adotara o nome de Eliot a fim de atrair respeito para sua ficção, desprezada à época caso fosse assinada com nome de mulher. Autoras eram associadas às histórias aguadas, sem propósitos maiores.

Evidentemente, não é o caso aqui. A maior qualidade de Silas Marner é justamente dar vulto a temas que transcendem seus limites paginados, lavrando entendimentos naquele momento mantidos sob a guarda da moral e que se consorciavam às transformações de seu tempo.

A própria escolha do protagonista já era inusitada: o homem do povo.

É ele quem vai testemunhar o novo arranjo social provocado pelo primeiros sinais da industrialização e registrar circunstâncias em que são postos à prova conceitos seculares, a exemplo da validade redentora da religião e da sedução do dinheiro a ponto de transfigurar o caráter humano.

Silas Marner é um tecelão respeitado na cidade de Raveloe. Vindo de fora, logo torna-se um membro ativo da comunidade, envolvido com a igreja local Pátio do Lampião. Está noivo da criada Sarah, e tem como melhor amigo William Dane. Apreende uma vida sem conturbações.

Certa noite então, durante a troca de turno na assistência ao diácono moribundo, ocorre o roubo do dinheiro da igreja e Silas é acusado injustamente. O verdadeiro ladrão é William Dane, que assiste a condenação arbitrária do “amigo”, sem piedade. O tecelão é expulso do convívio eclesial e decide abandonar a noiva e a comunidade.

Passa a viver, em autoexílio, num lugarejo rural, sem propósito para a sua vida; sobretudo depois que Sarah e Dane se casam. Seu interesse se restringe ao dinheiro.

Daí, o tecelão que é roubado e, numa soma de situações que envolvem abandono, desaparecimento e a chegada de uma criança, Silas volta a demostrar desejo pela vida, à medida que a desilusão e a melancolia perdem espaço para um brilho compartilhado de refletir no outro o sentido de reconstrução.

Eliot rompe dogmas, ao expor a fé em seu aspecto punitivo e ao defender que perdas são necessárias para ganhos mais significativos.

Porém, apesar da ótima tradução de Julia Romeu, o texto tem um ritmo congestionado, fundamentalmente descritivo, que de forma constante se dispersa em situações que nada contribui para o avanço da história e, mais grave, não se reconecta a nenhum dos dramas que deixou em aberto no começo.

Silas Marner, o tecelão de Raveloe tem uma incontestável legitimidade histórica, em especial no resgate de um tempo em que escritoras eram obrigadas a travestir seus nomes para escapar do preconceito, contudo sua experiência de leitura não faz jus à voltagem simbólica que irradia de si.

 

 

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Livro: Silas Marner, o tecelão de Raveloe

Editora: José Olympio

Avaliação: Regular

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