O passado que se guarda errado

Entre facas, algodão, de João Almino, faz parte da seara de romances que adotam o formato de diário para narrar a jornada de um protagonista que ajusta contas com o passado. Neste caso, um advogado septuagenário, radicado em Brasília, que abandona o longo casamento e se muda para o lugarejo de Várzea Pacífica, no interior do Ceará.

O motivo oficial é a compra do terreno onde ficava a fazenda Riacho Negro, na qual viveu a infância e a adolescência. Ali, com o auxílio do amigo Arnaldo, pretende passar seus últimos dias do plantio de milho, feijão e algodão, resgatando o espectro do tempo em que o local vicejava com a lavoura do algodoeiro.

Mas, secretamente, as causas de sua partida são o reencontro com Clarice, uma paixão de juventude, e a vingança pela morte do pai, assassinado quando ele era menino.

O livro, desse modo, tem início quando Patrícia, a esposa, flagra uma mensagem no Facebook em que Clarice escreve para o narrador sobre o terreno. A briga sucede a separação e, em capítulos curtos, cronologicamente o relato desfia-se pelo voo de Brasília a Fortaleza, a estada em Fortaleza e, depois, a viagem até Várzea Pacífica.

Durante essa soma de dias, a voz onisciente visita personagens e acontecimentos pregressos, rememorando a perda do pai; a mudança da família para a fazenda Riacho Negro, de propriedade de seu padrinho, pai de Clarice e do insidioso Miguel; o conturbado período de formação que se associou à sua educação sexual; e a saída para Fortaleza.

A partir da chegada ao terreno, a narrativa se alterna em dois planos temporais: o passado e o presente, envolvendo-se rumo ao futuro que o protagonista idealizou até então. No entanto, justamente por guiar seus atos com a força do que guarda de verdade, que seus planos e conceitos irão se espedaçar, pondo em suspeita até sua própria identidade.

Almino concatena o discurso memorialista às descrições de cenário, enredando o leitor à trama por meio de seu caráter confessional. Com frases enxutas e bem coordenadas, o testemunho vai amadurecendo aos poucos, revelando camadas e demonstrando aderência na perícia de aguçar a curiosidade acerca da solução dos segredos expostos.

Da mesma forma, é interessante notar como o autor executa pequenas fugas da linha principal da história, sem deixar furos; pelo contrário, utilizando-se dessa informação extemporânea para consubstanciar a relação do narrador com os outros personagens, ainda que o excesso destes possa gerar uma controvérsia.

Nem todos os personagens são bem desenvolvidos, todavia é preciso considerar que se trata de um espectador de seu tempo, cujo discurso se encorpa a partir do que entende como relevante ou não. Como mesmo se questiona, a certa altura: “Será que escrevo para me redimir de minhas culpas?”.

À parte os demônios pessoais, é a incapacidade de fincar um eixo que possibilita a construção de um universo rico e fidedigno, cujo poder de emparelhar o senso de descoberta ao ritmo da leitura constitui a chave para atestar o vigor inventivo de seu criador.

 

 

***

 

 

Livro: Entre facas, algodão

Editora: Record

Avaliação: Muito Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s