Jornada pelo submundo do amor

Não há heróis ou feitos monumentais na epopeia do paulista Marcio Dal Rio. Balada do crisântemo fincado no peito é uma jornada pelo prosaico cotidiano instigada por desacertos amorosos, que conflui com um submundo de drogas e criminalidade.

Seccionada em 138 capítulos curtos (ou vinhetas), a longa narrativa estrutura-se em elucubrações de um eu poético acometido pelo feitiço de um elenco volátil de mulheres, no qual prevalecem a devastadora Corbelha, uma ex-amante inesquecível, e a confidente Poliana, que funciona como uma espécie de consciência censora.

De maneira presencial ou virtual, as figuras femininas irão assombrar os (des)caminhos do diletante narrador por circunstâncias triviais da vida, nas quais convivem seres sui generis apelidados de crisântemos (Enchem a cara para fazer arruaça/Quebram vitrines, jantam prostitutas), jogadores de futebol cocainômanos e chefões do tráfico.

A ambientação marginalizada se torna reconhecível a partir do uso de um vernáculo específico, por vezes chulo, cujo poder é despertar experiências sensoriais. A linguagem também se encorpa de referências culturais, que vão da literatura a elementos de atração geracional. Que lucidez sobrevive ao Campari com Ki Suco e à telenovela das seis?

Esteticamente, Dal Rio se sai bem. Todo processo de montagem do poema concentra-se num desejo de despojamento e redução do essencial para o arco do narrador, demonstrando o interesse em trabalhar a narrativa com uma engenharia mais simples. Frases curtas, desconexas, que refletem, de seu corpo fragmentado, o baixio das vielas.

O problema é que não há um fio condutor claro, característico desse tipo de obra. Portanto muitos trechos soam alienados ao contexto que o narrador estabeleceu, tornando-se uma soma de platitudes e de reflexões das mais canhestras. A vida é um show de calouros, com a plateia/aplaudindo, conforme o pedido do contrarregra.

Ainda que pareça um contrassenso, tratando-se de uma epopeia, ser mais contido produziria um efeito de leitura melhor.

 

 

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Livro: Balada do crisântemo fincado no peito

Editora: Reformatório

Avaliação: Regular

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