Um breu por princípio invencível

Há dois anos, o protagonista de Correr com rinocerontes deixou Porto Alegre para estudar em São Paulo. Na faculdade, conheceu Bárbara, uma estudante de psicologia com pais problemáticos, que cativa uma ideia fantasiosa da cidade natal de seu namorado. A desconstrução (furtiva) desse olhar forasteiro é o traço inicial da natureza áspera, inaderente e sardônica que guia a maneira de pensar do narrador do primeiro romance do gaúcho Cristiano Baldi.

Ela dizia que o Rio Guaíba era lindo. Em quase todas as oportunidades evitei dizer que não se tratava de um rio, mas de um estuário, e que não era lindo, mas poluído e fedorento. Ela argumentava que era uma cidade tranquila, sem criminalidade. Eu também não fui tão enfático quanto deveria ao dizer que ela estava enganada, que às margens desse rio, que não era rio e nem lindo, estupravam-se jovens como ela. (…) Ela dizia que o clima era ótimo, o friozinho, a neve. Eu me controlava para não responder que neva por quarenta segundos a cada setenta e seis anos, e que o friozinho, que ela tanto exaltava, mata quase uma dezena de indigentes antes da metade de agosto.

A visão desencantada do lugar de onde vem não é o único conhecimento de que mantém Bárbara à parte. Da sua família, acortina fatos e fraturas. O núcleo ancestral é constituído pelo avô, um ex-militante político de esquerda, a avó diligente e a mãe, uma professora universitária. Mas o componente agravador cabe ao irmão menor, Igor, portador de um retardo mental severo, que ocasionalmente se manifesta em (re)ações de extrema brutalidade.

Oito anos antes, numa viagem de família a Gramado, um ato imprevisto de Igor causa um acidente incontornável. Embora não seja tratado como um pária ou visto como um fardo, as consequências de seu ato serão profundas, sendo a decisão do narrador de ir embora uma delas.

Agora, depois desse período de desconexão, ele retorna a Porto Alegre por conta de outra tragédia, ligada diretamente à realidade crua da cidade. A reintegração ao seu papel na família e ao cotidiano local despertará lembranças pontiagudas e aguçará uma apreensão ferina sobre a história, os hábitos e a sociedade porto-alegrense.

Através de uma dicção de frases bem coordenadas, que fluem de forma intuitiva, o narrador não poupa nada e ninguém ao seu redor. Por assim ser, a impressividade narrativa parece sobrepor os planos real e inventivo, levando ao leitor à sensação de que o autor estaria utilizando de uma voz ficcional para derramar suas opiniões.

Baldi, no entanto, se utiliza de um artifício muito perspicaz que é colocar os comentários mais contundentes em discursos indiretos, atribuídos a outros personagens. O narrador, assim, diz: “se ele falasse sobre isso, falaria assim” ou “se ele fizesse isso, faria dessa maneira”.

Ao erguer esse biombo, o enredo cria uma camada secundária, quase subjetiva, na qual residem temas como racismo, valores morais, ritos e religião. Isso contribui para um senso submerso da trama, marcada por elipses e saltos temporais característicos de uma escrita deslizante, propositalmente desarmônica.

Outro cuidado é com a escala da urgência. Em intervalos regulares, o autor reitera (ou rememora o leitor) de que algo terrível relacionado ao irmão do protagonista está prestes a acontecer. Não é uma surpresa, quando (e como) finalmente ocorre, mas a atmosfera que embala a cena preserva o impacto.

Por outro lado, o foco dado às histórias de alguns personagens secundários e às reflexões aleatórias soa dispersivo, e muito pouco acrescenta ao material de construção. A tessitura perde ritmo, desbarata, e só volta a ganhar força ao retomar o trilho que conduz o narrador ao encontro de seus demônios domésticos, da conclusão de que a vida, com suas maldades racionais e irracionais, é um caminho progressivo para um breu absoluto no qual você não consegue distinguir a si mesmo.

Correr com rinocerontes pode ser visto como um romance sinuoso de formação ou uma história sobre a impossibilidade de se desligar de sua origem, apesar da distância, ainda que a escolha pela fuga não consiga neutralizar a culpa na condição invariável de um legado.

 

 

***

 

 

Livro: Correr com rinocerontes

Editora: Não Editora

Avaliação: Bom

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