Um painel de sonhos e de rebeldia

Ainda nas primeiras páginas de Discurso do Método, tratado seminal da filosofia moderna, o francês René Descartes (1596-1650) declara que seu propósito não é ensinar o método que cada qual deve seguir para conduzir sua razão, mas mostrar de que maneira ele se esforçou para conduzir a dele.

Maria, a protagonista de Rio-Paris-Rio, novo romance da escritora Luciana Hidalgo, busca uma maneira de racionalizar seu universo físico, justamente quando se depara com o trecho citado, durante uma aula. Assim, incorpora a frase aos seus dias na condição de um mantra, o esforço ininterrupto de constituir “um método próprio para ordenar o caos dos anos recentes”.

Neta de um dos militares que acabaram de instituir a ditadura no Brasil, a jovem é enviada à capital francesa, onde empreende uma rotina matutina de estudante de filosofia e, à noite, trabalha na bilheteria de um cinema. O caso é que não consegue se livrar da sensação de forasteira, “de foragida”.

O idioma, os gestos e, até mesmo, o humor francês a oprimem, desencadeando a conexão com o modelo quase matemático de Descartes de conduzir o pensamento. Em seu quarto, há um xis riscado no chão sobre o qual se senta, depois de se certificar de que está no centro das dimensões exatas. Coloca Alegria, alegria para girar na vitrola, deita-se e passa horas encarando o teto.

Ali reina “toda simetria e perfeição que ela espera do mundo”. O desajuste é o que está fora, inclusive nos apartamentos vizinhos. Num desses, vive Marechal, um jovem que fugiu do Brasil para não ser pego pelos militares, e agora exerce o papel de líder de uma babel de expatriados por regimes totalitários.

Uma noite, ao voltar para casa, Maria se depara com uma festa promovida por Marechal, que toma o corredor do prédio. De repente, um jovem a segura pelo braço e iniciam uma conversa. Seu nome é Arthur, carioca como ela, enviado para o exílio por conta do passado político do pai. Ambos se enamoram, e o amor (ou a ideia de amor) entre eles é o componente fundamental da trama.

Arthur embarca Maria numa velha caminhonete e lançam-se numa viagem que cruza países, desmontando o método que ela criou e alterando a maneira de enxergar ao redor. Ele passa a ser sua “Ítaca móvel”, aquele que “aniquilou nela o sentido de solidão”. Maria admite ao seu convívio os amigos do namorado; e, consequentemente, seus anseios, suas convicções.

Além dos rompantes de poeta de rua, Arthur se filia a Marechal na articulação de um movimento de revolta às notícias que dão conta de prisões e torturas de estudantes, de invasão de militares nas universidades brasileiras. A certa altura, um aliado espanhol alerta: Se vocês não pegarem em armas no Brasil agora, vão cair no que a gente caiu lá na Espanha. O louco do Franco tá lá até hoje, e a gente não consegue sair disso. É uma espécie de vaticínio.

Hidalgo faz um trabalho consistente, da conversão da matéria histórica em matéria ficcional, remontando, como pano de fundo para essa história de amor, um painel intenso dos anos 60, em seus aspectos sociopolíticos e culturais, no qual circulam os filhos da revolução, os órfãos da repressão.

Personagens bem delineados, em suas psicologias, em seus ardores utópicos, que configuram uma juventude feita de “certezas absolutas, conclusões inéditas, grandes epifanias em minutos e que, minutos depois, não valem nada”.

Uma trama conduzida com segurança que, a despeito de um excesso de lirismo em trechos que dão revelo às emoções, compõe um retrato notável da geração que pegou em armas por um ideal, uma rebeldia estudantil que protagonizou o movimento de Maio de 68 e, de maneira tortuosa, resultou no cenário partidário que temos hoje.

Transvio bem representado pela francesa Martine, cujo afã libertário prescinde lados opostos: Frequenta gente de esquerda, tem namorado e amantes até mesmo de direita, porque se forem bonitinhos, tudo bem, vale a pena. No Brasil, o esboroamento político foi ambidestro.

 

(originalmente publicado no caderno Prosa, d’O Globo, em 12.11.16)

 

***

 

 

Livro: Rio-Paris-Rio

Editora: Rocco

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s