O sobrenatural e o ofício da escrita

Desde sua estreia com a antologia O pente de Vênus: histórias do amor assombrado, a literatura da escritora Heloisa Seixas vem sendo demarcada pelo gênero sobrenatural. Seu novo romance, Agora e na hora, retoma a mesma temática, porém inovando na estrutura compósita.

A trama se prenuncia com a narração da amiga de um escritor, que o descobre morto sobre uma pilha de papéis. São originais: “Livro Um”, uma reunião de contos, e “Livro Dois”, um depoimento autobiográfico, escrito às pressas. A narradora suspeita de que há um mistério envolvendo as partes, cujo cerne está conectado à morte do amigo, e decide publicá-las. O livro será, portanto, formado por esse conjunto.

Aqui, cabe um parêntese ao leitor. Há dois modos possíveis de leitura: o expositivo, começando pelo “Livro Dois” e sacando as referências que compõem o “Livro Um”; e o surpreendente, iniciando pelas breves narrativas do “Livro Um” e tendo o entendimento do capítulo anterior transformado pelas informações contidas no “Livro Dois”.

Tomando a ordem sugerida pela autora, os contos que vêm na frente são produtos de uma arqueologia de assombros. Todos os personagens transitam sob o signo da morte, na iminência de encarar a finitude ou situados num estágio em que se diluem na própria sombra, experimentando uma condição espectral.

São condenados, sobreviventes de um universo sem cura, a exemplo do velho que protege livros, num mundo distópico em que microchips instalados no cérebro decretaram a extinção de qualquer fonte física de informação. Na narrativa seguinte, o adeus derradeiro se dá por meio de uma dança; um casal que rodopia, até um deles esvanecer.

As histórias, então, adquirem um tom de testemunho. Um homem revive seu passado, atracado a uma interpretação onírica na qual os traumas que pontuaram sua existência se menoscabam diante da conclusão de que a morte é um estado de entrega. O diário de um pai, que perdeu a filha, descreve sua temporada num navio, buscando os perigos dos mares revoltos para se lançar numa viagem sem fim. O próximo conto é também um pacto de despedida, que se fecha com o mesmo bilhete que abre o texto anterior. É a chave que indica que as narrativas estão interligadas, que o enigma do livro reside em sua própria essência.

A noção de unidade, contudo, não depende de truques. Heloisa Seixas detém de domínio técnico para construir uma atmosfera densa e inabalável, que guarda acontecimentos sombrios, circunstâncias em que o cotidiano é infiltrado pelo secreto insólito, pelo extraordinário. Através de uma prosa vigorosamente imagética e sensorial, a autora instila um horror que está enredado a uma história mental e, na maioria das vezes, condiciona a ação dos atores da trama.

Assim se adentra no “Livro Dois”, o relato do escritor encontrado morto. Destemperado, o personagem revela que os originais são uma maneira de desfazer o fracasso com a escrita e de confrontar a Morte. Diagnosticado com um doença terminal, seu plano é tirar a própria vida e deixar um legado. Uma vingança, declara. Para com os “fantasmas que exigiam ser escritos, que lhe pediam voz”. E ao trazer a lume os autores que o “atormentavam”, os contos adquirem novos sentidos e desnublam pontes com a biografia e a literatura de uma soma de escritores, alguns cujos fins envolvem tragédias e circunstâncias misteriosas.

Heloisa Seixas recorre a referências, reproduções e intertextos para compor um romance sobre a força simbólica da morte na esteira do fazer literário. Uma exaltação, afinal, ao ofício da escrita e aos autores que emprestaram partes de seus universos para conformar o dela, reverenciados por meio de um livro que concentra histórias dentro de histórias, tal fantasmas dentro de fantasmas.

 

 

(originalmente publicado no caderno Prosa, d’O Globo, em 15.04.17)

 

 

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Livro: Agora e na hora

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Muito Bom

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