Distintas paranoias da classe média

Acre é um estado do norte do Brasil. Acre é também uma unidade de medida, assim como um adjetivo para designar um gosto amargo ou um sentimento aflitivo, doloroso. Todas essas acepções são trabalhadas, de maneira perspicaz, em Acre, romance de Lucrecia Zappi. Não se trata de uma narrativa metafórica, mas uma em que o sentido figurado configura a lâmina de um tecido de múltiplas camadas, das quais se sobressaem uma história conjugal e um retrato da atual sociedade urbana brasileira.

Logo na primeira cena, a autora destaca um elemento na ambientação que ilustra o desconserto a partir do qual se enreda o livro. Ao cruzar a porta e se queixar dos atrasos na reforma do apartamento, Oscar, o narrador, recebe a notícia de Marcela, sua esposa, de que Nelson, um ex-namorado que não via há 30 anos, acaba de subir com ela no elevador. Por uma dessas coincidências da vida, Nelson é filho de dona Vera, a vizinha de andar.

É nessa altura que Marcela aponta uma rachadura na parede. Embora inserida de forma ordinária, a fissura simboliza o abalo no casamento com a chegada do forasteiro. A marca na parede que separa os dois imóveis gera outro significado. O casal havia feito um acordo com a vizinha de adquirir o apartamento após a sua morte, pondo abaixo a parede adjacente e transformando os imóveis num só. A solidão de dona Vera a aproximou de Oscar, que desenvolveu uma tipo de afeição materna pela idosa.

A mãe de Oscar morreu quando ele era adolescente, vítima de câncer. Durante o tratamento, Oscar foi levado, a contragosto, para a casa de uma amiga da família, na cidade litorânea de Santos. Foi lá, tentando se enturmar com a galera da praia, que trombou com Nelson, que do mesmo modo era de fora e carregava a má fama de ter passado pela Febem. Também descobriu a beleza de Marcela, que vivia um triângulo amoroso com Nelson e o primo dele, Washington.

Por conta de rixa no surfe, Nelson passa a ser o principal desafeto de Oscar, aplicando-lhe surras constantes a ponto de nocauteá-lo. O caso é que a prática recreativa oculta uma outra prática: o tráfico de drogas. Uma combinação insidiosa que irá trazer consequências de distintas gravidades para a vida desses quatro personagens.

No fim, Oscar e Marcela se casam. Depois de morarem numa quitinete, compram o apartamento na Vila Buarque, no centro de São Paulo. Oscar se acomoda proprietário de uma loja de luminárias, e Marcela faz sucesso no comando de um restaurante a quilo. Tornam-se integrantes da classe média, e flanam numa rotina medíocre.

A chegada de Nelson atinge em cheio essa redoma de conforto. As preocupações triviais dão lugar ao mistério que envolve sua volta e, sobretudo, a maneira “diferente” que Marcela passa a reagir a essa presença do passado. Oscar guia seus atos e atitudes pelo ciúme, somatizando, a cada acontecimento dessa convivência inesperada, o gosto amargo e os sentimentos aflitivos, até se trancar num quadro de paranoia.

Descobre que Nelson veio fugido do estado do Acre, onde esteve outra vez metido em negócios ilícitos. A vizinha não tinha conhecimento do retorno do filho. E, além de temer pela reaproximação entre Marcela e o ex-namorado, preocupa-se com o acordo referente ao apartamento ao lado, seu acre futuro até então sem herdeiro.

O estranho no prédio também traz efeitos para a convivência com o núcleo de moradores. Por meio desse olhar transtornado do narrador, Zappi utiliza de coadjuvantes da trama para dissecar a classe média que observa o mundo por detrás dos vidros de proteção dos condomínios. Nesse palco galvanizado pela moralidade e pelo julgamento de valores, o romance atrai para seu contexto ficcional discussões relacionadas à homofobia, à xenofobia, ao justiçamento e à decadência dos centros urbanos.

A autora, no entanto, nunca se debruça sobre um debate didático ou panfletário, contendo os temas no espaço de seus personagens e, consequentemente, no do leitor. Outro acerto é adotar esse desconcerto que acomete o protagonista na estruturação, causando um desarranjo proporcional do encadeamento narrativo aos diálogos, que sugestiona e/ou força a leitura a um ângulo em que não se tem certeza se observa-se aquilo que de fato ocorre ou aquilo que ocorre na mente de quem conta.

As reminiscências da juventude de Oscar ambientam-se na metade final da década de 80, e Zappi lança mão de elementos da cultura pop a fatos marcantes da época com desenvoltura e plasticidade, escapando de qualquer tracejamento de pesquisa. Os avanços e recuos constantes no tempo, além de trazerem informações que mudam o modo de se enxergar os principais personagens (e analisar suas condutas), oferecem duas visões sobre estes, servindo de matéria para torná-los críveis, densos e humanizados. Aliás, todo elenco da história, com grande ou pequena participação, é muito bem construído em suas dimensões psicológicas.

O triunfo, obviamente, cabe a Oscar. Um sujeito tomado por um conflito interno, transtornado, porém incapaz (re)agir à altura do que lhe aflige, que apresenta uma passividade de dar nos nervos, de causar angústia durante a leitura. E tirar o leitor do eixo já um motivo e tanto para tornar um livro imperdível.

 

 

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Livro: Acre

Editora: Todavia

Avaliação: Muito Bom

2 comentários sobre “Distintas paranoias da classe média

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