Triunfo da precisão narrativa

No ensaio “Teses sobre o conto”, contido no volume Formas breves, Ricardo Piglia atesta sua proposição definitiva: um conto sempre conta duas histórias.

Tomando como modelo uma micro narrativa escrita por Tchekhov em seu caderno de notas (Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se), o autor argentino desmembra a dinâmica do conto clássico em dois momentos: em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo), sob a qual ocorre em segredo a construção da história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista, portanto, consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1.

O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície, observa Piglia.

Em seu livro de estreia, a carioca Alê Motta cumpre à risca a tese de Piglia em todo seu potencial de compressão. Os microcontos de Interrompidos celebram esse caráter duplo, cujo núcleo carrega um relato futuro, porém não escrito, oferecido ao leitor na forma de sugestão.

Envolvidos por uma mordacidade ímpar, esses recortes sumários da realidade avançam em direção a um entendimento que extrapola seus arredores, pleiteando significado no que foi posto em suspensão. Ao leitor, encurralado, cabe sempre a desconfiança, que é justamente a matéria ondulante desse trabalho de precisão.

Tomemos, como exemplo, o conto “Presente”:

Num passado distante fui almoxarife em obras grandes. Meu apelido era Zé Cabeludo. Eu passava o dia inteiro contando. 75 sacos de argamassa. 43 conexões. 200 blocos de concreto.

Hoje conto 14 crianças agitadas. 33 adultos irritados.

Gotas maldosas de suor nas minhas costas. O ar condicionado nem parece funcionar.

Cada criança que tira foto comigo pede um presente. Playstation, boneca, tablet, skate.

Ninguém sabe que este é meu último ano como Papai Noel. Eu também quero um presente. Um resultado diferente do exame.

Analisando-o pela perspectiva de Piglia, repare como a história do sujeito que era almoxarife e hoje trabalha como Papai Noel é assaltada com brusquidão pela notícia da doença. A todo momento, o texto transita por pontos de deduções, sendo o mais contundente o apelido Zé Cabeludo e a referência ao exame (câncer/radiação/perda de cabelo).

A manipulação da palavra “presente”, da mesma forma, busca um alargamento de seu conteúdo, ao contrastar o desejo de criança com o anseio pela vida, na esteira de fatos explícitos e suprimidos que levam invariavelmente a um sentido de finitude. O trecho “este é meu último ano” é a chave da dualidade.

Outros contos exploram as inter-relações familiares, amorosas e profissionais, das quais emergem cenas de perdas, de vingança, de formação, de pura maldade, pressionando a lógica dos acontecimentos até o limite do bizarro, do tragicômico, do insólito.

A autorreflexão é o fio condutor de algumas narrativas, não obstante transitando pelos mesmos planos movediços onde a ação do destino (em alguns casos do post mortem) é flexionada de modo a revelar pouco ou deixar o quase todo oculto. Procurar significações é parte do exercício de leitura.

Como atenta a escritora Adriana Lisboa, na contracapa, escrever demais é mais fácil do que escrever o suficiente. O não declarado é o que faz da escrita de Alê Motta impecável.

 

 

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Livro: Interrompidos

Editora: Reformatório

Avaliação: Excelente

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