Radiografia de um festival de dança

A leitura de Uma história simples me trouxe a certeza da boa escolha de Leila Guerriero para integrar um debate em que se discutia os limites da ficção e da não ficção, na última edição da Flip. Pois se tem algo que salta aos olhos no livro-reportagem da jornalista argentina é seu caráter extensivamente narrativo, cuja exploração temática passa pelo filtro inelástico da literatura, combinando a reprodução da realidade e a experiência pessoal de seu narrador.

Tecnicamente, a escrita de Guerriero se mune de alguns dos aspectos do chamado Novo Jornalismo ou Jornalismo Literário. O texto que permite a total imersão daquele que o escreve, assumindo a posição de um agente duplo, aquele que observa ao mesmo tempo que participa da história.

A perspectiva subjetiva dos acontecimentos também se destaca, assim como a interpretação da verdade. De fato, a autora argentina resgata o sentido investigativo aplicado por um dos papas do estilo, o norte-americano Gay Talese, em seu livro Fama e anonimato, no qual pessoas comuns são examinadas pelo que há em si de extraordinário.

O personagem de Guerriero é o jovem professor de dança Rodolfo González Alcántara que, em 2012, sagrou-se campeão do Festival Nacional de Molambo de Laborde, uma cidadezinha encravada no interior da Argentina, onde ocorre a competição mais tradicional e disputada da dança típica do país.

A apresentação de molambo combina um circuito de movimentos corporais associado a um intenso sapateado, realizados de maneira tão agressiva que o competidor sai demolido do palco (não raro, com os pés sangrando). São cinco minutos, no máximo, de exibição. No entanto, é preciso um rendimento físico superior ao de um jogador de futebol, pois se “corre” ininterruptamente durante esses cincos minutos. O jogador percorre cem metros e para; o malambista, não. “É uma barbaridade”, define.

A jornalista vai a fundo na radiografia do campeonato, do qual o vencedor leva um mero troféu. A consagração advém do prestígio e da reverência, do destaque e da honra “de ser um dos melhores entre os poucos capazes de dançar essa dança assassina”. No pequeno circuito majestoso dos dançarinos folclóricos, um campeão de Laborde é um eterno semideus. Tanto que há um acordo, entre aqueles que alcançarem esse renome, de não mais disputarem o festival.

A reportagem de Guerriero descreve a construção desse mito, transitando sua escrita por essa linha tênue que separa a vitória e a derrota, desse modo descobrindo frestas pelas quais contempla as transformações físicas e emocionais dos competidores, da mesma maneira que do ambiente em que se instala o campeonato. Nesse caso, curiosamente, Laborde se aproxima muito da cidade de Paraty, onde se dá a Flip. O lugar remoto que vive alguns dias de glória, depois se apaga.

O relato tem início em 2011, quando a jornalista viajou até o povoado a fim de entender como um evento quase secreto poderia ter uma repercussão grandiloquente. Foi então que, numa madrugada, diante do palco, ela se deparou com a apresentação de Rodolfo, que lhe raptou os sentidos.

Ele era o campo, era a terra seca, era o horizonte tenso dos pampas, era o cheiro dos cavalos, era o som do céu de verão, era o zumbido da solidão, era a fúria, era a enfermidade e era a guerra, era o contrário da paz. Era a faca e era o talho. Era o canibal. Era uma condenação. Ao terminar, bateu na madeira com a força de um monstro e ficou ali, olhando através das camadas de ar folhado da noite, coberto de estrelas, puro fulgor. E, sorrindo de lado, como um príncipe, como um rufião ou como um diabo — tocou a aba do chapéu. E se foi. E assim foi. Não sei se o aplaudiram. Não me lembro.

Porém, naquele ano, Rodolfo perdeu; ficou em segundo lugar. Guerriero, contudo, tinha encontrado seu personagem, e o acompanha durante todo o ano posterior, desvendando seu treinamento, sua vida humilde, suas relações familiares, sua infância e seus anseios. Procura compreender, através da figura do dançarino, o que leva um grupo de jovens, na faixa dos vinte anos, a se dedicar de maneira incansável e febril para a disputa de um torneio cuja recompensa é intransferivelmente simbólica.

A resposta está na jornada de Rodolfo até o triunfo. Na forma como a autora apura e testemunha esse evento, fazendo o leitor, mesmo ciente do final, ser enredado pela atmosfera de suspense, pela sensação de espanto ao se pegar torcendo pela vitória do personagem. Essa é a cota de mérito que cabe a Guerriero. Ainda que se pleiteie uma singeleza em seu título, Uma história simples esbanja a complexidade e o requinte próprios das boas obras literárias.

 

 

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Livro: Uma história simples

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Bom

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