Libelo contra a violência à mulher

A casa das rosas é um jogo intrincado de identidades, disposto em escalas universal e particular. O romance da carioca radicada em Portugal Andréa Zamorano ambienta-se, em sua maior parte, na primeira metade dos anos 1980, período em que o Brasil deixava a ditadura militar em busca de redemocratização, na esteira do movimento das Diretas Já.

A autora transporta esse sentido vasto de independência para suas personagens principais, mulheres que decidem se libertar de relacionamentos regidos pela opressão.

Cândida é uma estudante de Letras que se casa com Virgílio, um advogado herdeiro da elite do século XIX intitulada Barões do Café. Vão morar num casarão na Avenida Paulista, tendo a única companhia de Raimundo, que cuida do viçoso jardim de rosas.

Não tarda e Cândida engravida, assim como não tarda a descobrir um marido autoritário, ciumento e agressivo. Virgílio não aceita que se contrate empregados para auxiliar nas tarefas domésticas e aplica surras na esposa durante a gestação. Depois que Eulália nasce, a situação se torna insustentável e Cândida foge, estranhamente não levando a filha.

A história dá um salto temporal e, no correr da década de 80, Eulália está prestes a completar 18 anos de subordinação ao pai. Faz faculdade de Direito, por ordem dele, é vigiada de forma constante, o que a impossibilita de ter amigos e, menos ainda, namorado. Desse modo, cultiva uma paixão platônica pelo poeta Juan García Madero (personagem extemporâneo retirado de Os detetives selvagens, do chileno Roberto Bolaño), sobretudo em função de seus versos revolucionários.

No dia do aniversário de Eulália, Virgílio, agora deputado com ligação com os porões da ditadura, deixa uma grande caixa de presente para a filha. Ao abri-la na presença do pai, a moça se depara com um vestido de noiva. Virgílio a chama de Cândida, quer possuí-la. E tudo descamba para um incidente de consequências incontornáveis.

Entra em cena, então, o delegado Dias, um sujeito astuto, que não comungou com a repressão. Reparte o caso em duas frentes: o sumiço de Eulália e a ataque ao deputado Virgílio. A principio, fica a suspeita de uma ação planejada por um grupo revolucionário, seguida de sequestro. No entanto, ao investigar o passado que se descortina através das lembranças de Raimundo e da empregada Cesária, o delegado vai encontrar, naquele núcleo familiar, um recorte espelhado do que acabou de passar o país.

Andréa Zamorano estrutura seu romance a partir de diferentes pontos de vista. A troca da voz reinante é um recurso bem usado para a conformação dos atores da trama, em seus dilemas e profundidades psicológicas, tal qual para garantir ao enredo o clima de mistério e uma soma de significados que transcendem seus limites ficcionais.

A autora também flerta com elementos da literatura fantástica, convocando um personagem que se afeiçoa o coelho de Alice no país das maravilhas. No entanto, nunca pesa a mão, proporcionando fluidez e magnetismo para uma história em que a procura pela própria identidade passa pela apropriação de outras.

A casa das rosas já deveria ser lido por ser um libelo legítimo e poderoso contra a violência à mulher. Sua autora vai além, superpondo a realidade com uma camada tênue e aderente de invenção na qual se arquiteta um país que conseguiu se livrar de um mal institucional, porém ainda sustenta outros que, de maneira oblíqua, caracterizam sua sociedade. A história de Eulália, Cândida, Ana, Maria, afinal, traz um brilho de esperança.

 

 

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Livro: A casa das rosas

Editora: Tinta Negra

Avaliação: Muito Bom

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