Fábula sobre partida e reencontro

O chileno Antonio Skármeta faz, em seus livros, um tipo de fábula revisionista. Suas histórias trazem personagens diante de um dilema, cuja resolução ganha forma a partir do despertar de sentimentos ou da decifração de um enigma capaz de mudar um destino.

É assim em sua obra mais conhecida, O carteiro e o poeta, que foca na formação da amizade entre Pablo Neruda e um sujeito semianalfabeto, responsável por entregar as cartas do escritor chileno na ilha em que este encontra-se exilado por razões políticas.

Em O pai de cinema, cuja adaptação cinematográfica recebeu o título de O filme da minha vida e direção de Selton Mello, Skármeta se ocupa de um recorte de tempo, no qual a solução de um mistério é o estopim para se elaborar um plano de redenção.

Jacques é um jovem professor que vive na aldeia de Contulmo, no sul do Chile. Há alguns anos, quando voltou de Santiago, onde passou uma temporada estudando, encontrou seu pai, de origem francesa, embarcando, naquele mesmo dia, num trem rumo a Paris.

Apesar dos inquéritos constantes, sua mãe, que afundou numa depressão incontornável desde então, nunca lhe disse o verdadeiro motivo de o marido ter deixado a família.

Jacques, assim, leva dias monótonos, comprimidos por essa ausência, traduzindo poemas franceses para o jornal local, socializando com Cristián, que ocupou o cargo que era de seu pai no moinho, e acalentando uma amizade com o aluno Augusto Gutiérrez, cuja irmã Teresa desperta-lhe interesses amorosos.

Quando Augusto completa quinze anos, pede para que Jacques o acompanhe até um famoso prostíbulo na cidade vizinha de Angol. O professor nega o pedido, mas decide ir por conta própria, tendo a companhia de Cristián.

A viagem resultará numa arrebatadora revelação, que reconfigurará a visão que tinha do passado recente, e fará com que invista num estratagema com o poder de não apenas remodelar sua vida, mas operar na conciliação de todos aqueles que, partidos, estão ligados a si.

Skármeta dá vida a um enredo de fôlego breve, que faz o caminho de um acerto de contas e, ao mesmo tempo, de uma história de formação. Em um pouco mais de cem páginas, separadas em capítulos curtos, a novela centraliza-se no relacionamento entre os personagens e em como as decisões de uns interferem diretamente na transformação da personalidade de outros, em especial daqueles conectados pelo segredo.

Referências literárias e cinematográficas surgem aqui e acolá, contudo sem qualquer ambição de complexidade, do mesmo modo que todo o curso e desdobramentos da trama.

O leitor, diante de O pai de cinema, tem de ter a ciência de que se trata de uma leitura leve, passível de ser cumprida em uma hora, que encanta pela sensibilidade aplicada naquilo que norteia seu desenvolvimento, muito embora apressado em sua resolução final.

 

 

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Livro: Um pai de cinema

Editora: Record

Avaliação: Bom

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