O pensamento e o bater na cabeça

Ainda que soe incoerente, o livro que melhor retrata o cenário sociopolítico do Brasil nos últimos quatro anos foi escrito por um angolano radicado em Portugal.

O torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares, apresenta um povo tentando dar corpo a uma revolução e um governante teorizando a maneira de agir, a de se relacionar com o que o circunda e as resoluções mais básicas que um soberano de seu porte deve articular e conceder aos seus governados.

Em ambos os casos, a inépcia é tamanha que gera constrangimento e humor.

Tavares dá um passo além em seu universo criativo cuja matéria original é a alegoria. E, convenhamos, não há país mais alegórico que o Brasil.

Dividido em duas partes desproporcionais, o livro tem a primeira seção formada por uma reunião de breves diálogos que primam pelo absurdo que se extrai de uma realidade naturalmente regida pela falta de lógica. Há uma textura estranha, um tanto distópica.

O autor, contudo, não se presta a explorar com rigor acadêmico as noções de bem e mal, as farpas que se soltam da fricção entre poder e regência, a repercussão dos atos bruscos e determinantes na história, mas se apropriar de todos esses conflitos e utilizá-los para construir uma linguagem radicalmente singular de onde saltam situações sedimentadas pela sátira, pelo nonsense, pela paródia.

Não é raro, durante a leitura, vir à tona uma sensação de que se está diante de um esquete do grupo Monty Python.

Os colóquios abarcam temas dos mais variados, entre os quais o amor, a matemática, o tédio, a humanidade versus a animália, o culto à beleza, dispondo-se numa série de frases que se retorcem para ganhar fôlego e se ajustar ao espaço entre os interlocutores, aludindo ao torcicolo do título.

São vozes nunca nomeadas, porém. Algumas adestradas a se dirigir ao outro com o trato de Excelência. Tavares usa o maneirismo hierárquico num contexto em que se discutem amenidades e filosofias rasas para estabelecer ali frentes de ironia.

É inevitável a repetição não trazer à mente cenas das acaloradas contendas entre nossos ilustres parlamentares, nas quais o termo geralmente precede adjetivos dos menos elegantes, a exemplo do clássico “Vossa Excelência é um canalha”.

A parte final, intitulada “Cidade”, configura-se um território onde a população é batizada por números, trafegando a esmo por destinos e sentimentos vãos de modo a emular ou a sofismar um mundo em que nada mais parece fazer sentido, em que a tragédia e a irracionalidade atingiu um grau de intolerância que só nos cabe rir.

Assim trabalha a literatura de Gonçalo M. Tavares, afinal: operando no mecanismo de captura do espírito de seu tempo e convertendo-o numa identitária ficção que, a despeito do aspecto surreal, fornece bases sólidas sobre as quais o mundo em que vivemos muito bem poderia se assentar.

 

 

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Livro: O torcicologologista, Excelência

Editora: Dublinense

Avaliação: Muito Bom

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