Duas vidas em modo desmontável

A cidade de Guernica ficou eternizada no painel produzido por Pablo Picasso para a Exposição Internacional de Paris de 1937. A obra de mesmo nome retrata pessoas, animais e prédios esfacelados pelas bombas lançadas pela força aérea alemã sobre o indefeso território espanhol, no curso da Segunda Grande Guerra.

Conta a história que o pintor espanhol, que na ocasião vivia em Paris, compôs a tela como um manifesto imediato de repúdio às notícias que traziam os jornais. Muito mais que representar os horrores da guerra, no entanto, Picasso estabelecia uma reflexão inesgotável sobre os efeitos causados por atos desumanos em escala pessoal.

Em seu novo livro, Moema Vilela busca inspiração no conceito e na estrutura da obra-prima espanhola para dar forma à Guernica. A novela tem uma ordem narrativa fragmentada, do mesmo que as figuras de Picasso. Há também uma guerra que ocorre em dois níveis: no espaço do mundo e no secreto da inter-relação entre mãe e filha.

Maria carrega uma existência moldada por conflitos. Estava grávida, quando o pai de sua filha, um soldado do exército, morreu num campo de batalha.

Mais tarde, tem de administrar a rebeldia de Luiza e a difícil convivência da adolescente com o padrasto. Esta, por sua vez, assume as dissidências na condição de um legado. Chega a planejar um suicídio e, na idade que sua mãe tinha quando ainda precisava de atenção, terá de lidar com uma perda dolorosa e lenta.

É uma história sobre a coexistência entre a vida e a morte.

Em capítulos curtos, que se entrecruzam através de avanços e de recuos temporais, Maria e Luiza iluminam momentos compartilhados e aqueles que preveem ou que sucedem o liame maternal, sondando esse relacionamento por meio de seus pontos de vista e dos de outros personagens, em aparições pontuais.

Moema aposta num trabalho delicado de experimentação sobre a brevidade textual e a não linearidade, e se sai muito bem.

Embora as partes não tragam sinalizações sobre a época em que estão, nunca fica confuso sobre quem recai o foco e quando isso ocorre. Demarcar a trama com ecos de revelações e de pontas que se amarram também garantem entendimento e fluidez, reforçando o enlaçamento que há no correr dessas duas vidas.

Outro ponto positivo está num efeito, que já se tornou uma marca particular da autora.

Referências musicais, literárias, cinematográficas e sociais de um determinado período são utilizadas para esculpir as personalidades dos personagens, assim como estabelecer a atmosfera do episódio em que estão. Isso faz com que o leitor saia da posição de mero observador e participe do andamento narrativo, ao resgatar da memória pessoal fatos que se relacionam com aqueles descritos na trama.

Moema Vilela entrega um livro breve, de onde se irradia uma sobrecarga emocional. Do mesmo modo que o pintor espanhol, a autora entende que as consequências de um ato não necessita de sua origem para ter força, que pode repercutir de todo conteúdo dramático que há em sua reprodução.

 

 

***

 

 

Livro: Guernica

Editora: Udumbara Edições

Avaliação: Bom

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Um comentário sobre “Duas vidas em modo desmontável

  1. Parabens Mo!! Esse seu novo livro é a mostra da sua vivacidade, sua percepcao aguçada, e emotividade inteligente expressa nessa novela. Bjo e muito sucesso.

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