Sem autorização para o paraíso

Um levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia apontou que 2016 foi o ano com o maior número de assassinatos da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) desde o início da pesquisa, há 37 anos. Foram 347 mortes, em todo o Brasil.

Segundo o mesmo estudo, a maior parte dos homicídios ocorreu em via pública, sendo as causas mais recorrentes tiros, facadas, asfixia e espancamento. Esse último foi o que provocou a morte de um menino de oito anos, no Rio de Janeiro, em 2014, num crime marcante em função da estupidez e da brutalidade.

Enraivecido porque o filho gostava de dança do ventre e de lavar louça, o pai passou a aplicar o que chamou de “corretivos”. Surrava o menino repetidas vezes para “ensiná-lo a andar como homem”, até o dia em que a criança não aguentou e desmaiou de dor. Minutos depois, morreu num posto de saúde. Teve o fígado dilacerado.

O caso hediondo é rememorado pelo narrador de O inferno é logo ali, de Mike Sullivan, como uma maneira de refletir seus próprios demônios.

Ele próprio foi vítima dos abusos físicos e psicológicos do pai homofóbico e alcoólatra. Como relata nos primeiros parágrafos, quando tinha por volta de 13 anos, o pai o levou à força a um puteiro e, com um revólver encostado na cabeça de uma prostituta, ordenou que ela fizesse o filho “gostar de buceta”.

Os traumas de infância deformam sua personalidade, a ponto de o fantasma do pai o atormentar na vida adulta. Mike Sullivan, o personagem, agora um quarentão tentando se firmar escritor, dissolve suas perturbações mentais em doses excessivas de drogas e depravação. Um circulo vicioso que se alimenta do próprio vício e de quem o mantém.

Em seu novo livro, o escritor carioca segue o empreendimento de uma literatura crua e suja, que se expõe sem reservas, alocando seus narradores em submundos de uma existência definida pela degradação do corpo, pela perseguição do prazer de modo a estancar as dores da alma.

A diferença aqui está na forma, na qual se impõe um flerte com a autoficção, alternando o discurso direto entre prosa e poesia, ou num alargamento entre ambos. Os poemas de Mike avizinham-se aos da fase pornográfica de Hilda Hilst. Os trechos em que o narrador afunda em si revelam-se os melhores.

Ocorre que falta musculatura entre esses fragmentos, um fio condutor que conecte esses devaneios/confissões, de modo a condensar a história num testemunho que repercuta, por meio da ficção, a tragédia de centenas (ou milhares) de crianças e jovens que são humilhados, surrados e mortos pela maneira de se portar, pelo direito que cabe a todos de escolher por quem se sentir atraído, seja física, romântica ou emocionalmente.

Mike tinha todo um material para escrever um libelo, mas não o fez. Com isso, a agressividade que permeia todas as frases e versos de seu livro acaba se diluindo por ter um propósito apenas de chocar, por ser uma soma de gritos que se arrevessa contra sua própria repetição.

 

 

***

 

 

Livro: O inferno é logo ali

Editora: Edição do autor

Avaliação: Regular

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