O sexo enquanto sagrado e profano

Sempre me pareceu improvável um autor alcançar tamanha voltagem sensorial, ao descrever a descoberta da sexualidade, como o fez o norte-americano James Baldwin, em Giovanni. Está no trecho do romance em que o personagem-narrador rememora sua adolescência, à época em que passava férias na casa de veraneio do amigo Joey.

Numa noite quente, depois de um dia na praia, o narrador é despertado pela luminosidade vinda do quarto do amigo. Estão sozinhos na casa. Ele então se levanta e encontra Joey verificando o travesseiro, por conta da suspeita de ter sido picado por um percevejo. O fato inusitado dá partida a um trilho de provocações e, no momento em que se atracam, algo diferente, de todas as outras vezes em que fizeram essas lutas de brincadeira, ganha forma.

Mas daquela vez, quando o toquei, alguma coisa aconteceu nele e em mim, tornando aquele contato diferente de qualquer outro que conhecêssemos. E ele não resistiu, como fazia quase sempre, mas ficou ali onde eu o levara, contra meu peito. E eu compreendi que meu coração disparara e que Joey estremecia, e a luz no quarto era muito brilhante e quente. Comecei a mover-me e a fazer algum tipo de brincadeira, mas Joey murmurou alguma coisa e inclinei a cabeça para ouvir o que era. Joey ergueu a dele enquanto eu abaixava a minha, e nos beijamos por assim dizer, acidentalmente. E então, pela primeira vez em minha vida, tive plena consciência do corpo de outra pessoa, do cheiro de outra pessoa. Tínhamos os braços passados em volta um do outro. Era como se eu segurasse na mão um pássaro raro, exausto, quase condenado, que milagrosamente eu conseguira descobrir. Eu estava muito assustado, tenho a certeza de que ele também, e fechamos os olhos.

É uma cena intensa embora carregada de doçura, que concentra um descompasso de sensações: espanto, atração, medo, prazer. Baldwin vai construindo todo o ato a partir de transições sutis entre resistência e aceitação, por fim alteando o cumprimento do desejo a um marco de transformação capaz de determinar uma conduta. Pareceu, naqueles momentos, que toda uma vida não bastaria para que eu executasse com Joey o ato de amor. Considero-o um trecho insuperável.

Mas eis que sou tomado de assalto, ainda nas primeiras páginas de Oito do sete, da paulista Cristina Judar, pela voz imperiosa de Magda.

Assim como o narrador de Giovanni, ela recua os anos; como no caso dele, o gérmen da mutabilidade física e intelectual está da sexualidade. Não há um momento-chave, porém. Magda vai narrando sua (trans)formação a partir de um código que faz sentido apenas para si, cujo sistema (ou entropia) processa referências de seriados, telenovelas, música, cinema e de outras expressões culturais e os convertem em acessos para a descoberta de um mundo que não aquele reservado para garotinhas.

São fragmentos de memórias que dão conta de conflitos e de conflitos internos, articulados num trânsito veloz que cruza a rebeldia juvenil, a rejeição ao modelo tradicional de família pai-e-mãe/mulher-e-homem, encontrando, tal qual na cena escrita por Baldwin, a consumação do desejo numa noite de verão ao lado de Glória.

Ficamos a sós. Eram tantas as estrelas sobre minha pele que me senti em um filme 3D. Ou elas desceram. Ou fomos nós que subimos. E sentamos na calda de um cometa, como naquelas imagens antigas da Atlântida. Dissemos tantas coisas, brilhamos conforme as dizíamos, sentimos nossos corpos e espíritos, demos luz a milhares de seres e a espaços sem nos darmos conta disso, novas constelações foram condensadas, sóis escorregavam pelo firmamento fúcsia, buracos negros engoliram e foram engolidos, vias lácteas percorreram seus trajetos. (…) De tanto existir e de gerar, e de criar e reinventar, adormecemos extenuadas acima do mundo. Amanheceu. Dos degraus da varanda da casa à praia era um pulo. A consagração no mar. Até que o sol se pusesse, éramos mel e areia; sal e água; havia galáxias aos nossos pés.

Ato contínuo, Magda e Glória tornam-se amantes e atam um relacionamento intenso, cujo fervor desencadeia “agressões e subversões”. Magda, neste ponto da vida, torna-se uma estilista renomada, e por aí também decidem frequentar um clube de casais homossexuais que se consorciam para ter relações heterossexuais. Num desses encontros, conhecem Rick e Jonas. Glória, que tinha experiência anterior com homens, transa com Rick, e Magda e Jonas percebem que “são gays demais para isso”.

Ocorre que o interesse entre Glória e Rick rompe o ciclo da casualidade e, um vão temporal depois (Quando me dei conta, não havia mais nada), ambos são um casal vivendo em Roma, onde sobrevivem entre a idealização artística e a realidade tapa-na-cara do imigrante. Criam, desconstroem, têm uma perda feia e tudo segue feito um jogo de resta um, até acabar. Essa é a visão do conjunto de fatos que liga esses quatro personagens, pela ótica de Magda.

Ter seis asas é estar nu: um anjo, uma cidade e uma amante

Há um quinto personagem, no entanto. Um ser etéreo, um anjo de nome Serafim; por assim ser, um serafim. Em sua voragem de discurso direto e devaneio, Magna coopta sua presença na trama, comunica-se com ele via carta. Mais adiante, Serafim ganhará voz ativa, onde narrará o próprio nascimento, algumas de suas peregrinações pela Terra e o organismo de autarquias que define o Céu e Sua planificação no controle sobre a humanidade. O ápice de seu discurso está, porém, nos momentos em que assoma o destino traçado pelo quarteto terrestre, em especial em dois capítulos belíssimos nos quais relata a experiência de entendimentos carnais no contato com Magda.

Roma, a cidade, é outra a ter sonância. Palco da busca de Glória e Rick por um sentido na vida, por um recomeço que os inocentassem daquilo e daqueles que inadvertidamente deixaram para trás, o lugar se conta por meio de uma arqueologia de sentidos, do exame do que viveu (a história, a arquitetura, o espírito do tempo) e da presciência de uma soma de outros dramas que terão a si como cenário, como um território onde sonhos irão nascer e morrer, onde pessoas sonharão a morte e a vida.

O testemunho mais urgente, contudo, é o de Glória. Se toda história tem dois lados, seu papel de amante de Magda adquire outros contornos quando a percepção do que aconteceu é filtrada pelo seu ponto de vista. Sua decisão, antes posta sob o julgamento de uma traidora, vai se descamando um ato imprevisto de alguém libertário sobre suas escolhas, sobre as possibilidades que norteiam a preferência sexual.

Os homens são embarcações; as mulheres, terra para me afundar. Meus movimentos e os delas, por sua vez, construíram formas ergonômicas, nas quais eu me reconhecia enquanto ofertava e colhia. É perfeita a união entre os iguais. Responsável por manter eu e Magda atadas por tanto tempo, a despeito de nossas temporalidades. Deus sabe o que faz, minha mãe sempre disse isso. Em um mundo físico, o desejo satisfeito da carne é o sedimento da verdade, unicamente por resultar em um corpo composto, por uma, duas ou mais pessoas.

Glória não está num limite antagônico ao de Magda, e sim num espaço além, no qual a idealização do relacionamento homem-mulher/mulher-mulher não passa de tentativas de classificar uma união que pode consolidar-se em estado físico e/ou espiritual. Reflete que o desejo é algo que vem num fluxo que não predefine desagues, que há mudanças nos papéis e tarefas como há “mudanças de humores, noite e dia, sol e chuva”. Por isso se aventurou com Rick, aventurou-se por Roma e tal aventura teve um sabor ferroso, ao fim. Desde criança Magda sabia o que queria ser, declara. Ela, não.

Cristina Judar, em sua estreia no romance, constrói uma narrativa compósita, hiperestésica e polirrítmica, cujo apuro no trabalho da linguagem ocasiona uma prosa altamente lírica e simbólica, na qual a sexualidade (ou a homossexualidade) se destaca como uma espécie de deusa do sagrado e do profano. As quatro vozes que vão construindo esse universo de atamentos e desenlaces emocionais, de imanência e de abismo, de convivência entre o etéreo e o palpável, estabelecem uma condição volúvel para as leis de espaço e tempo, transitando da experiência infantil para um passado mais recente em que, não raro, a vida adulta adquire uma atmosfera de sonho, de delírio.

A força de seu texto está justamente no entrelaçamento entre essas camadas vibrantes, essas frequências de pensamentos, imagens e lembranças que traduzem seus personagens e suas motivações por meio de um circuito complexo, em que a natureza do discurso rompe barreiras formais e determina a marca de uma literatura magnética.

Com a morte recente da escritora Elvira Vigna, autoras do porte de Cristina Judar são necessárias pela capacidade de imprimir uma identidade, pela busca por caminhos sem facilidades para desconcertar o leitor, pela coragem de experimentar e envolver com ficção temas cuja natureza a sociedade ainda não conseguiu assimilar, passados mais de sessenta anos da publicação da obra-prima de James Balwin.

 

 

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Livro: Oito do sete

Editora: Reformatório

Avaliação: Muito Bom

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