Uma Londres a se observar

À parte o mérito da injustiça, é inegável que o nome da inglesa Virginia Woolf evoca, com igual intensidade, literatura clássica e suicídio. Ficou marcado no consciente coletivo (ou, ao menos, daqueles dados à leitura) a história da escritora que encheu os bolsos do casaco com pedras e se lançou rio a fundo.

Woolf afogou-se em março de 1941. Deixou obras-primas, a exemplo dos romances Orlando e Mrs. Dalloway. O suicídio foi a forma de dar fim ao inferno da depressão.

Cenas londrinas tem, entre outras virtudes, a oportunidade de apresentar uma autora mais, digamos, solar. Os seis breves ensaios que compõem a antologia, escrita no início da década de 30, fazem uma espécie de inventário de uma parte afetiva de Londres, cidade com a qual teve uma relação estreita por meio da geografia, do clima e da arte.

O olhar de Woolf percorre das docas ao comércio popular, retratando as engrenagens de uma cidade em pleno despertar do século XX. Dos textos, é possível coletar toda uma sorte de classes sociais, uma fauna de trabalhadores pesados e de plebeus, entrando com solenidade pelas construções eclesiásticas e pelos cemitérios (por que não?), a fim de se capturar a essência espiritual que emana desses ambientes, daquilo que se conjuga no trânsito do visível e do invisível.

O último ensaio, que foi acrescentado para essa edição ao quinteto originalmente publicado na revista Good Housekeeping (que ironia!), é uma investigação porta adentro do funcionamento cotidiano de uma família londrina no encalço de sua matriarca.

Os melhores momentos, no entanto, são aqueles em que a autora concilia o registro dos lugares e dos objetos ao contexto literário, mencionando Shakespeare e Chaucer, cujo ponto máximo está em “Casas de grandes homens”, no qual se coloca numa posição quase de cicerone num tour pelas residências de Charles Dickens, Thomas Carlyle, Samuel Johnson e do poeta John Keats.

O tom sobremaneira descritivo desses relatos não extrai, porém, o verniz potencialmente poético da prosa de Woolf.

Mas quando entramos na casa em que Keats viveu, uma sombra de luto parece descer sobre o jardim. Uma árvore caiu e está escorada. Galhos fazem dançar sua sombra oscilante nas brancas paredes da casa. Ali, em que pese toda alegria e serenidade da vizinhança, cantava o rouxinol; e se havia um lugar onde a febre e a angústia fazem sua morada era aquele, envolvendo o opresso territoriozinho verde com uma sensação de morte próxima, de brevidade da vida, da paixão do amor e sua infelicidade.

Cenas londrinas não pode, em peso ou em tamanho, ser comparado aos romances da autora inglesa, mas complementa esse olhar sobre a vida que, antes de sucumbir ao fim trágico, converteu as investigações sobre o outro e sobre si numa das mais notáveis obras da literatura universal.

 

 

***

 

 

Livro: Cenas londrinas

Editora: José Olympio

Avaliação: Bom

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2 comentários sobre “Uma Londres a se observar

  1. Virgínia Woolf deixou um legado de ensaios tão importantes quanto os seus escritos de ficção. Vale lembrar o excelente “Um teto todo seu” dentre outros que ainda não foram traduzidos por aqui. Excelente crítica, Sérgio!

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