Concisos flagrantes da realidade

Literatura não é uma ciência exata, mas pode se valer de conceitos físicos para dar forma a histórias. Lembremos de Cortázar e seu O jogo da amarelinha, na qual a narrativa ganha rumos distintos de acordo com que o leitor salta páginas, seguindo sugestões propostas pelo autor.

Afonso Borges recorre também a transições do espaço-tempo para imprimir um estilo muito particular na criação dos contos de Olhos de carvão. Ao contrário do mestre argentino, o autor mineiro não busca a fragmentação movediça da estrutura, e sim o entrelaçamento do texto dentro de uma estrutura compacta.

Visto num diagrama, é algo que sai do ponto A, salta para ponto B (às vezes, também para o C e para o D) e vai alternando posições até retornar ao ponto A. Um movimento completo, construído a partir de uma prosa seca, de frases ágeis e precisas.

Nesse processo, os próprios títulos dos contos são junções de palavras-chaves da trama. “A brisa, a queda e o Gueto de Vilna”, que abre a coletânea, é sobre um velho escritor que vive em Tel Aviv e recebe a notícia de que ganhou o prêmio Nobel. Em meio a considerações banais e telefonemas de congratulações, sua memória recua até a Segunda Guerra, quando foi encarcerado, junto a mulher e ao filho, no Gueto de Vilna, na Polônia. Ali escreve seu poema épico sobre os judeus escondidos no esgoto.

A narrativa, que entremeia passado e presente, transita pelas covas coletivas dos fuzilados e pelo Tribunal de Nuremberg. Revela ainda uma notável bagagem de conhecimento do autor, que alimenta sua ficção com referências literárias e históricas. O conto é sobre Abraham Sutzkever, o grande poeta do Holocausto.

Borges também se ocupa da própria memória e de observações cotidianas. Belo Horizonte surge em cenas, cenários e personagens comuns e ilustres. “A encruzilhada, o assobio e as garças” é um passeio no encalço dos gigantes Murilo Rubião e Bartolomeu Campos de Queirós. Outros contos tratam de inter-relações dissonantes na casa e na rua, focando na violência urbana e em males modernos provocados pelo uso da tecnologia e pela solidão.

“Na divisa, os olhos de carvão em Celeste”, que combina nome com o livro, traz a lume a tradição religiosa da cidade, relatando a visita de uma mulher à Igreja de São José, onde esta se depara com uma imagem aterrorizante com olhos de carvão. Entre tantos temas, esse é certamente o que melhor caracteriza a coletânea: o espanto.

Cortázar comparou o conto a uma fotografia, pois pressupõe uma limitação prévia, imposta pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação. O contista aplica a mesma técnica, ao recortar um fragmento da realidade, fixando-lhe determinados limites, mas de tal modo que esse recorte atue como uma explosão que abra de par em par uma realidade muito mais ampla, como uma visão dinâmica que transcende espiritualmente o campo abrangido.

Os contos de Borges alcançam tal distensão espacial, ao converter uma série de flagrantes em instantâneos narrativos.

 

 

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Livro: Olhos de carvão

Editora: Record

Avaliação: Bom

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