A escrita multívaga de César Aira

É sempre motivo de aplausos o lançamento de um livro de César Aira por aqui. Eclético na mesma medida que prolífero, o escritor argentino aproxima-se da marca de uma centena de livros publicados em seu país, entre romances, novelas, peças e volumes de contos e de ensaios, atuando ainda na tradução e na crítica literária.

No Brasil, todavia, seu catálogo é pequeno. Como me tornei freira, que encabeçou a ótima coleção Otra Língua, garantiu um pouco de luz ao seu ofício incomum de escrita, no qual a variedade de estilos se imprime de maneiras macro e micro. A leitura de um texto ficcional de Aira traz a sensação de que o autor não tinha um plano quando começou a escrevê-lo. Tudo vai se transformando à medida que avança, reinventando-se, dando em portas que se abrem noutras portas que, não raro, permanecem fechadas.

O texto existe, e as possibilidades contidas nessa existência parecem mover o argentino. Isso posto, não é estranho seus escritos frequentarem as bordas da realidade, de onde se extrai uma matéria extranatural para dar vida a personagens inusitados e erguer uma atmosfera de atração ora onírica ora surrealista.

É o que ocorre em Os fantasmas. Publicado originalmente em 1990, o romance tem seu núcleo constituído por personagens à margem da sociedade. Raúl Vinãs e sua família ocupam o último andar de um prédio de alta classe. Eles são chilenos, e ficarão ali no tempo em que o imóvel estiver em construção. Rául é zelador e um dos pedreiros.

Aqui vale um parêntese. Neste período, a Argentina gozava de uma melhora econômica, depois de uma longa e sangrenta ditadura. Era o primeiro ano do governo Menem, que havia implantado reformas que zeraram a hiperinflação e equipararam o peso ao dólar. A escolha dos chilenos também não é ao acaso. Data a época do regime militar uma briga territorial entre os países que, por pouco, não resultou em confronto armado. Aira explora essa rixa, o olhar vilipendioso sobre o forasteiro.

Voltando ao livro, o início é fantástico. Uma maneira de descrevê-lo com exatidão é recorrer a uma analogia a um recurso cinematográfico. Passa o último dia do ano, e os futuros moradores do prédio vão visitar seus apartamentos sob a condução de Félix Tello, o arquiteto. A narrativa opera a exemplo de um longo plano-sequência, deslizando pelos andares, adentrando recintos e apresentando uma soma de personagens e suas personalidades.

Félix funciona como ponto de interseção entre os moradores e os operários, os ricos e os pobres.

A partir de certo ponto em sua carreira, havia começado a conviver quase exclusivamente com duas faixas sociais muito afastadas entre si: os extraordinariamente ricos que compravam unidades nos seus sofisticados edifícios, e os pobríssimos pedreiros que os construíam. Tinha descoberto que ambas as classes se pareciam em muitas coisas, e muito especialmente em sua completa ausência de delicadeza quando se tratava do dinheiro. Nesse aspecto eram decalques exatos. Os muito pobres, e os muito ricos, consideram natural tratar de tirar um máximo de proveito de quem têm à frente.

Circulando em meio aos bem-afortunados e aos miseráveis, estão os fantasmas. Alguns os veem na condição de homens nus cobertos com pó branco; a família de chilenos os veem de forma natural. A convivência causa situações bizarras, a exemplo de quando Raúl, numa comemoração entre os operários, usa o “corpo” de um deles para gelar o vinho, convertendo-o numa bebida de fina safra. Aira não perde a chance de fazer troça da qualidade do produto chileno.

Sua visão sobre seus personagens, por sinal, está longe achar o foco na benevolência. A todo instante, uma característica desabonadora é apontada: são baixos, feios, comparados a insetos; não demonstram níveis normais de inteligência; são felizes, embora não tenham nada; vivem conformados com a penúria.

A única que se opõe a essa sina é Patricia, a filha mais velha. Sua presença divergente leva a história de um exame de costumes a um debate quase existencial provocado pelo conflito de gerações, pela decisão de não herdar as impotências de seus pais feito um legado. Não por menos, a forma pela qual a adolescente se comunica com os fantasmas se distingue das dos demais. E, a partir desse relacionamento, o romance dá uma nova guinada e ganha ares sinistros.

Aira consegue um feito surpreendente: trilhar uma sorte de caminhos dentro de uma ambientação fechada. Isso possibilita múltiplas interpretações e leituras, sendo proeminente a crítica social. Quase três décadas depois, a situação dos imigrantes segue tão calamitosa e desoladora quanto.

Fazendo uma leitura metafórica, os fantasmas são, de fato, os expatriados, vagando pelo mundo em busca de um futuro em construção.

 

 

***

 

 

Livro: Os fantasmas

Editora: Rocco

Avaliação: Muito Bom

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2 comentários sobre “A escrita multívaga de César Aira

  1. Sou o tradutor de Os Fantasmas pra nossa língua e gostei muito da sua abordagem do livro.
    Seu final, com a relação fantasmas-expatriados, dá no nervo.
    Mas penso que os monstros chilenos de Aira são tratados com profundo amor, vistos com grande dignidade, sendo a própria esposa de Raúl Viñas, Elisa Vicuña, uma espécie de filósofa.
    Além disso, leio a geladeira-transformer do fantasma como um enorme elogio ao vinho chileno.
    Grande abraço,
    Jorge “Joca” Wolff

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    1. Oi, Joca! Grato pela leitura e, mais ainda, pela bela tradução do mestre Aira!
      Fico lisonjeado com suas palavras.
      Um interessante ponto de vista que colocou.
      Isso só demonstra o quanto a obra do Aira é rica, e permite tantas leituras e interpretações.
      Que venham outros livros!
      Viva a literatura hispano-americana!
      Um forte abraço!

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