A sublimidade das coisas comuns

Pela ambientação, Andrea Ferraz indica de onde extraiu o gérmen de Guardem as cinzas, seu segundo romance.

Vila do Olho Calado, um lugar estacionado no tempo (as mesmas ventanias e as janelas brancas, as noites quentes nas quais não se fecham as portas, o mato seco e o rio que virou um filete de esgoto, as aves migratórias que não chegam mais e o sal que tempera menos), preserva coordenadas ficcionais equivalentes as de Santa Maria, do uruguaio Juan Carlos Onetti, e as de Macondo, do colombiano Gabriel García Márquez.

As particularidades formais do livro, no entanto, encostam suas fronteiras as de um sítio real, a cidade mexicana de Comala. Ali transcorre a jornada do narrador de Pedro Páramo, em sua busca pelo paradeiro do pai, que é também a investigação de sua própria identidade.

A exemplo da obra-prima de Juan Rulfo, a escritora pernambucana recorre ao discurso multívago para engendrar uma densa atmosfera poética na qual a trama se fragmenta em capítulos curtos que não seguem uma linha temporal regular.

A expansão imaginativa é também a expansão dos sentidos. E o triunfo se estabelece na descrição de uma realidade demasiadamente marcada pela miséria e pela tragicidade, que enreda os personagens numa peregrinação fantasmal.

A voz reinante é a de Antonio, a ponta alta de um triangulo carnal em que está sua mulher, Maria da Paz, a Paizinha, e Maria Santa, a empregada da casa. Antonio é de uma cepa de homens brutos em seus modos e inter-relações, frequentando o prazer e a violência com a mesma intensidade.

Num coito forçado, engravida Maria Santa. A partir daí, a trama se desenrola na procura por uma parteira.

Andrea Ferraz faz um trabalho cuidadoso com as palavras, alcançando arroubo estético através da fala interior de seus personagens e do arranjo entre seus atos físicos, pensamentos e desejos ocultos. A predominância do caráter metafísico produz belas imagens referentes à sublimidade das coisas comuns, tipo em:

A gente é o que é, se não for, cedo ou tarde vai ser. Agora não importa mais. Nunca vi o mar, ela viu. Farei uma santa, de mim, o sacrifício. O altar está pronto, o pombinho na gaiola, o lugar do fogo, a lenha de queimar gorduras e a parede onde aspergir sangue. O gado e as formigas lá fora.

Ocorre que a autora não consegue instalar elementos de distinção em meio ao vozerio, e o leitor às vezes não tem certeza de quem está falando e com quem. Outro problema são os personagens que surgem do nada, para desaparecerem da mesma forma súbita.

São defeitos fáceis de serem contornados. Porém, diante de uma narrativa que funciona exclusivamente a partir do ponto de vista de quem a guia, geram confusão e transformam certos capítulos em passagens estranhas ao andamento da história.

Rulfo demonstrou que o romance não carece de um enredo linear para exercer um magnetismo visual. No entanto mesmo a desordem guarda, em si, a necessidade de que cada fio esteja bem atado ao eixo que faz mover a trama.

 

 

***

 

 

Livro: Guardem as cinzas

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Bom

Anúncios

Um comentário sobre “A sublimidade das coisas comuns

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s