As raízes expostas de um estado

Guayrá, de Marco Aurélio Cremasco, é um romance histórico-ficcional que remonta o período das missões jesuítas pelo território hoje localizado o estado do Paraná.

Convergindo vigor imaginativo a um meticuloso trabalho de pesquisa, o autor paranaense dá forma a um mundo cuja gênese está no confronto entre o invasor europeu, motivado pelo domínio territorial e pela implantação da catequese cristã, e o nativo selvagem, devotado ao seu próprio imaginário de mitos e crenças.

O livro é ambientado no início do século XVII, no momento em que a Coroa Espanhola envia seus missionários para o Guayrá, uma extensa região do Brasil meridional.

Ali estão concentrados os índios guaranis, que serão o alvo do ciclo evangelizador. Embora o plano de domínio da monarquia seja utilizar a religião com propósitos econômicos, os padres jesuítas realizam o novo mundo através da noção de Paraíso, instados pelo pendor teológico que se arrima ao esplendor da fauna e da flora.

Iniciam, desse modo, o processo de instalação de um regime baseado na civilização pela fé, de alguma forma incorporando a cultura e os valores indígenas.

As vilas comunitárias avançam, apesar de sofrerem resistência da própria Igreja Católica e dos nativos, extensivamente caçados e mortos pelos exploradores portugueses, que visavam escravizá-los. As doenças e os estupros também são recorrentes.

O combate mais agressivo, no entanto, é feito pelos bandeirantes vicentistas que, impelidos pelo ódio aos jesuítas, desencadeiam um massacre e uma fuga pelas correntes turbinosas do rios, que se afigura uma odisseia rumo a uma espécie de terra prometida, a utópica Terra Sem Mal.

Cremasco converte, de forma virtuosa, a matéria antropológica em ficção.

Dividido em breves capítulos, que evoca um evangelho, o romance se estrutura a partir da descrição rica e apurada de múltiplos cenários e da revivência de momentos históricos, superpovoados por personagens inventados e reais, a exemplo do sacerdote peruano Antonio Ruiz de Montoya, que se notabilizou pela luta em defesa dos índios e pela escrita do dicionário da língua guarani antiga.

O vocabulário do livro é também marcado por uma profunda experiência linguística, que ganha sentido no glossário situado nas últimas páginas. A inclusão de expressões do dialeto indígena pesa a leitura, que acaba sendo equilibrada com as diferentes tonalidades com que se desenha o enredo.

Enquanto o núcleo dos missionários é apresentado de maneira mais introspectiva, investigando suas angústias e desígnios espirituais, o olhar sobre o cotidiano das tribos tem um aspecto naturalista, sutilmente lírico, destacando suas integrações com as lendas e a natureza selvagem. Uma variação de estilos que se reflete na narrativa, em grande parte conduzida por um timbre expositivo, na terceira pessoa, mas que ainda se constrói em fluxos mentais e alternância de vozes.

Próximo ao fim, o livro converge para o olhar de um personagem que, mesmo nocauteado, consegue enxergar esperança no futuro. É o que viu e o que não verá que constitui, de fato, Guayrá: um potente trabalho de escrita de um autor que se lança a cavar fundo a terra e expor as raízes do estado onde nasceu.

 

 

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Livro: Guayrá

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Muito Bom

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