Clássico também em doses menores

Conhecido por seus romances clássicos, entre os quais O crime do padre Amaro e Os Maias, Eça de Queirós publicou uma soma de narrativas breves em jornais e revistas, que foram reunidas numa edição póstuma lançada no início dos anos 1900.

Dez contos escolhidos de Eça de Queirós é um trabalho de curadoria cuidadoso, que não se acomoda aos textos mais notórios, e dá a dimensão dos fazeres linguísticos e aspectos temáticos que tornam o português um autor que deve ser lido, acima de tudo, por quem pretende atuar no campo da escrita.

Organizada pelo acadêmico e escritor Mário Feijó, a seleção vai dos célebres “A aia”, “O defunto” e “Frei Genebro” aos contos menos populares entre os leitores brasileiros, como “Um dia de chuva” e “Um poeta lírico”. Ficou de fora, por exemplo, “O tesouro”.

O livro abre com “Singularidades de uma rapariga loura”, a história do jovem Macário, que se encanta por uma vizinha de nome Luísa. A relação o leva a inúmeras adversidades, porém, apaixonado, viaja a Cabo Verde para fazer dinheiro e se casarem. O sonho, no entanto, é destruído por uma falha de caráter da amada.

Aqui é possível divisar algumas das marcas do texto do autor português: a força descritiva, a tessitura compassada e o protagonismo de homens transformados por desilusões amorosas. “O defunto”, que vem a seguir, acrescenta outras características: o humor em voltagem irônica e o exame minucioso do comportamento humano.

Eça de Queirós é um dos grandes construtores de personagens, tanto em seus traços físicos quanto em suas densidões psicológicas. Ao circularem em seus ambientes, eles se prestam a fornecer um retrato crítico dos costumes da época e a servir para que o autor registre, por meio de alegorias, as mudanças da sociedade que inspeciona.

Sendo assim, a religião não poderia escapar desse olhar, aparecendo, com destaque, em “Frei Genebro” e “O suave milagre”, um conto sobre os caminhos até Jesus que guarda uma dúbia interpretação em seu desfecho, sugerindo um encontro redentor, porém que pode ser entendido como a colocação nefasta de uma picardia.

Não seria algo fora do comum. Pelo contrário. O que dizer de “José Matias”, texto que começa com a seguinte frase: Linda tarde, meu amigo!… Estou esperando o enterro de José Matias? É a deixa para que o narrador recapitule as peripécias do tal amigo, alfinetando a presença daqueles que esperam a chegada do caixão no cemitério.

Afeito a longos romances, Eça de Queirós também é brilhantemente ferino em doses menores.

 

 

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Livro: Dez contos escolhidos de Eça de Queirós

Editora: José Olympio

Avaliação: Muito Bom

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