Um tribunal de paredes espelhadas

Manchetes que antecipam a trama de No céu com diamantes dão conta de um parricídio. Algumas delas, extraídas dos jornais da cidade de Pilar de Absalão, berram: “Médico e esposa morrem em incêndio, filha do casal escapa”, “Família morta em incêndio: suspeita de abuso sexual”, “Família imolada: filha é a principal suspeita”.

O romance do paulista Daniel Lopes Guaccaluz configura-se, dessa forma, uma investigação que caminha para trás. Ao cruzar a primeira linha, o leitor tem o conhecimento do que aconteceu. Resta descobrir os motivos que levaram a protagonista a assassinar e a queimar os corpos dos pais.

O caso é que essa também é uma pista falsa. Se o fio condutor é o crime, Guaccaluz de fato o usa como artifício para refletir sobre temas contemporâneos e espinhosos, retratando o mundo de uma maneira que pode parecer niilista, mas que nos mostra como estamos entalamos, até o pescoço, no fundo lodacento do poço.

Valendo-se de sua formação de filósofo, o autor embala seu texto no fluxo de uma náusea coletiva, recorrendo à intertextualidade – em especial com a obra de Albert Camus -, e à referências vastas que emprestam elementos simbólicos da cultura, da sociedade, da ciência e da política, tratando de moralidade, racismo, violência sexual contra criança e contra mulher, loucura, corrupção em diferentes esferas, decomposição do núcleo familiar, censura e religião.

Uma detonação planejada para acertar a todos, que funciona muito bem justamente por todos nós merecermos a condição de alvo.

A parricida é L., que se encontra encarcerada num manicômio judicial feminino para mulheres com distúrbios mentais e histórico de crimes violentos. A jovem, de 28 anos, é tratada pelo psiquiatra negro Lucius Horne, com quem desenvolve um laço de confidencialidade e afeição. A contragosto de um colega de trabalho, o cruel Dr. Marcos Casanova, Horne é a favor de um tratamento mais humano, que se baseia em atividades como a escrita. L. é incentivada, por ele, a escrever num caderno.

Assim se revela, aos poucos, sua infância deflorada pelo pai, um médico que subjugava a esposa ao ponto de esta não reagir contra os abusos sexuais sofridos pela filha. O tempo presente do livro ainda se divide em capítulos que se concentram na rotina do manicômio e na vida particular do Dr. Horne.

Outros capítulos, no entanto, recuam a Idade Média, período em que os inquisidores promoviam a caça às bruxas. Os relatos, carregados de significações metafísicas, acompanham os dias de fuga e esconderijo de uma mulher que é vista, em seu povoado, como feiticeira.

Não fica claro se esses momentos têm a ver com os escritos de L., tampouco se são frêmitos de alucinação, mas certeza é que afluem rumo ao texto principal, estofando-o em seu propósito de denunciar a repressão contra a mulher, o morticínio e o inferno que se alimenta do sexo feminino.

A fogueira queima as bruxas há milênios, e hoje trazemos uma chama em cada bolso, sempre pronta a alimentar o julgamento. Guaccaluz encontra, numa história que leva a reconsiderar o conceito de sanidade nos dias de hoje, um palco espelhado onde estão os tribunais da intolerância, os discursos de ódio, o saco de pancadas da vez. E acerta em cheio por não ser, ainda que pungente em suas reflexões, partidário ou perceber o mundo reduzido a duas cores.

Toda pessoa portadora de uma verdade, seja ela política, ideológica, ou religiosa se torna insuportável porque fecha portas e janelas para o diálogo e tenta apenas colonizar o outro. Em tal situação, a besteira prospera e a nuance é estraçalhada, destroçada, jogada para escanteio e sem nuance não há pensamento. O pensamento mora na nuance e rompe a teia quando, mergulhados na besteira – e a besteira não é só a conversa de bar, mas também as teses de doutorado que nada dizem de novo -, alguma sutileza nova nos atravessa e percebemos um viés, uma porta que se abre ao pé de uma parede sem porta, onde antes só havia tijolos, concreto, palavras de ordem e excesso de predicados. Assim, não o bom senso, mas a besteira é a coisa bem mais distribuída do mundo; está sempre com a maioria e sempre encontra aplausos, uma vez que nela nos reconhecemos, estamos seguros. A besteira é apartidária, está tanto no caldo da direita, tanto no jargão de boa parcela do que se convencionou chamar esquerda. (…) Um papagaio bem treinado poderia repetir discursos enormes, mas não estaria pensando, estaria no território da besteira. Também os macacos, mesmo os albinos, repetem gestos uns dos outros. Que o ser humano tenha capacidade de pensar não quer dizer que pense, não é mesmo?

Certamente.

 

 

***

 

 

Livro: No céu com diamantes

Editora: Alink

Avaliação: Muito Bom

Anúncios

4 comentários sobre “Um tribunal de paredes espelhadas

    1. Sim, Adriane, um livro atualíssimo, que não se acanha em problematizar esses tempos burros de polarização. Como escrevi, o mundo não é fatiado em apenas duas cores. Beijão, querida! Sempre grato por acompanhar a página.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s