O auge do teatro negro de Callado

O ano de 2017 marca o centenário do jornalista, escritor e dramaturgo Antonio Callado. Completam-se também 20 anos de sua morte e 50 anos de sua obra-prima, Quarup, um dos romances mais representativos do Brasil que, em plena ditadura militar, colocava em evidência o aparelho institucional de tortura.

O livro inaugura a fase da literatura de engajamento político do autor niteroiense, que até então tinha se dedicado exclusivamente à dramaturgia, com montagens teatrais de sucesso, sendo Pedro Mico (que completa 60 anos, diga-se de passagem), a de maior relevância.

A peça, ambientada numa favela carioca, tem como protagonista o malandro negro, cujo apelido vem de sua tenacidade em escalar as coisas para escapar da polícia. É um drama que trata da marginalização e da violência social, evocando a figura de Zumbi dos Palmares.

Pedro Mico foi a primeira peça a constituir o chamado “teatro negro” de Callado. Duas décadas depois, ao assistir uma encenação deste espetáculo com atores brancos com o rosto pintado de preto, o autor escreveu A revolta da cachaça que, ao lado de Quarup, tem um caráter perene de denúncia.

Ambientada numa casa na serra de Petrópolis, a peça começa com o dramaturgo Vito e sua esposa Dadinha surpresos com um tonel de cachaça instalado ao lado da porta da sala de estar. Vito bate à máquina um texto teatral, enquanto proseiam. Ainda que suspeite que foi entregue por engano, Dadinha decide bebericar o aguardente.

Daí chamam na porta, e entra em cena Ambrósio. Ator negro, vestido de forma muito elegante. É uma visita inesperada, do mesmo modo que a razão de ele estar ali. Foi Ambrósio quem enviou o tonel, para identificar o endereço serrano do dramaturgo. Veio lhe cobrar uma dívida.

O ator exige que Vito termine uma peça de nome A revolta da cachaça, inspirada no episódio ocorrido nos anos 1600, em que habitantes do Rio de Janeiro se revoltaram contra o aumento abusivo de impostos sobre o destilado produzido no Brasil, a fim de privilegiar o monopólio do vinho português.

O interesse de Ambrósio é por conta de o protagonista ser negro. Diz:

Foram tantas, de tanto sucesso, que diziam até que sua máquina de escrever tinha virado máquina registradora. Mas era tudo peça pra ator brasileiro normal (…) peça de preto honesto, preto-preto, preto sem habilidade e hipocrisia, da carapinha à córnea amarela e à unha roxa, essa não tem, essa você não acabou nunca!

E complementa: Se você continuar assim, quem fica sem peça sou eu, porra. Acabo outra vez fazendo papel de criado, de ladrão, de bicheiro ou chofer.

A altercação segue em tom maior, esbarrando nas defesas de Vito, que argumenta ter de finalizar a peça atual ou vai precisar “peruar qualquer trabalho na televisão que pintar, ou fazer papagaio no banco, ou vender a casa”. Ambrósio se mantém suplicante e irredutível, contudo, e o bate-rebate converge para um ato drástico.

Callado compôs A revolta da cachaça para evidenciar a falta de oportunidade para autores negros em papéis principais. Apesar de ser um drama de um único ato, com um discurso simples, o texto esconde segredos e catapultas que levam o leitor/espectador a confrontar, a partir da experiência artística, o racismo e a injustiça em escala social.

A personagem Dadinha, ainda que secundária, é a que representa esse ponto de vista ambíguo – e pernicioso. De início defende que seu marido termine a peça (Poxa, Vito, às vezes você dá mesmo a impressão de que só quer sacanear o Ambrósio, tirar o pão da boca dele), para caminhar, a passos de gato, rumo a mais sórdida das atitudes.

Ambrósio, tampouco, é unidimensional.

Defende formas de se esquivar do preconceito (Crioulo tem que andar com ar de quem é troço na vida, de quem tem grana no banco e erva viva no bolso. Se ele não se enfeita e de repente pinta uma cana – quem é o primeiro a entrar no camburão?) e repudia a própria raça (Se esta cor de carvão não me atrapalhasse na minha carreira, eu estava cagando pra ela, palavra), em favor de um objetivo que, ao fim, aproxima-o daquilo que sempre lutou para se distanciar.

Callado assina um texto que aborda um questão cuja raiz está numa camada muito mais profunda que sua superfície impõe. Uma realidade que, a despeito de uma sensível melhora, segue coerente aos dias de hoje, seja na arte ou na vida.

 

 

***

 

 

Livro: A revolta da cachaça

Editora: José Olympio

Avaliação: Muito Bom

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