A poesia tá morta faz tempo

Toda a vez que termino a leitura de uma antologia poética, fico mais convicto de que a necessidade de um critério avaliador atende exclusivamente a uma convencionalidade. Pois se a crítica é uma soma de experiência subjetiva com noções de técnica, a poesia condiz muito mais a esse primeiro componente.

Mas vou lá, ainda que reticente, pleitear uma avaliação para Trapaça, de Marcelo Labes, uma reunião de poemas que, legitimando o título, tem o intuito original de trapacear o próprio fazer poético. Um expediente declarado na primeira parte do livro; e, sem dúvida, onde o autor se sai melhor.

Atento muito mais à expressividade que à forma, Labes empreende uma (meta)análise do gênero, evocando um pragmatismo ora debochado ora descrente, que tira a poesia daquela categoria que a alteia a um dom divino ou a música da alma. Diz: – A poesia tá morta faz tempo/e a gente fica fazendo onda.

Os versos guardam esse significado simbólico que nasce da ação de espiar dentro de si, cobrando, do que transcende a escrita, um emprego que for. Caso não sirva para confrontar ou para comover, que tenha ao menos “cheiro de talco”. O poema/só faz sentido/quando se dá/conta de seus/perigos, de “Solicitamos:”.

Não se trata, porém, de um ato reducionista, e sim do ofício de um escritor que entende muito bem onde cabe em si a porção poética. Vide o sóbrio “Despoema”:

Se os poemas ao menos/nos dissessem o que/a gente cresce sem nem/desconfiar://que a vida é dura/e é toda tua/e que não perdes/por esperar://[a gente só perde/senta, espera;/perde, senta e/espera]//Se os poemas ao menos/dissessem que a gente/nunca chega, de fato,/a ganhar.//Então os poemas/seriam sinceros//[e já não haveria/mais que escrevê-los.

Daí tem início a segunda parte, e fica claro de que os textos não são da mesma safra. Não apenas pela temática, mas pela qualidade artística. Parece uma coleção garimpada da gaveta. Labes aposta em verificações construtivistas, assimétricas, que retratam a vida ordinária no que esta contém de mais superficial. Ciclos temporais, reiterações de frases e rompantes sensoriais marcam um conjunto heterogêneo e fraco, que traz versos como: Abria uma janela/amarela/para ela.

Sorte que, no segmento seguinte, o autor volta a boa forma, encontrando na memória a substância de seus poemas. A mesma vida ordinária agora é explorada na fundura para onde vão os sinais e os rostos que norteiam a infância, uma porta que perde o esmalte e continua exibindo a mesma paisagem lustrosa. Ali estão moradores e locais do passado, apreços literários e musicais, a família e suas solenidades, o mundo que ficou “tão grande que a/gente nem se/encontra mais”.

A poesia é feita a partir de um repertório de palavras elementares, ainda que com cuidado e criatividade. Sai dali os mais belos textos da coletânea, a exemplo de “Mcgyver”:

de repente/a gente lembra/de algum dia/dos 80//(na memória/umas rasuras/tantas tardes/tantas ruas/silhuetas/quase sempre/silhuetas)//de repente era 90//de repente/não foi nada//[e a gente fica/besta, estancada/no meio da escada//como se aquilo/de há tantos anos/tivesse passado/semana passada].

O quarto e último segmento volta a apresentar a mesma irregularidade da segunda parte, com a diferença de ter em seu favor poemas que se prestam a descrever uma cena que reflete a (dura) realidade coletiva ou a realidade que enxerga apenas o poeta. Destaque para o trio “Paus & pedras”, “Boletim de ocorrência” e “Receita de bolo estragado”, que nos brinda com a estrofe: olhar adiante – ou/quase um instante,/dá na mesma:/passado é passado/e nunca se sabe/se vai realmente/amanhecer.

Trapaça, enfim, é marcado por altos e baixos que, no indispensável de uma avaliação, seria classificado como regular. Mas isso, tenho mais certeza, não passa de uma convencionalidade.

 

 

***

 

 

Livro: Trapaça

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Regular

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