Engrenagens da subestrutura social

É muito interessante quando um autor instiga a atração entre seus contos, sem recorrer à repetição de personagem ou à aparições de um elemento simbólico.

Em Sem sistema, a paulista Andréa Catrópa alcança tal efeito não apostando no que impulsiona seus enredos, mas naquilo que serve de canal para que estes aconteçam.

Ainda que inusitado, são as ocupações de seus protagonistas que os inserem num consórcio de motivações. Homens e mulheres que se sustentam através de serviços localizados na subestrutura urbana, pelos quais acabam se reificando, tornando-se da mesma maneira algo utilizável, uma peça barata da engrenagem social.

Catrópa separa nitidamente sua antologia de estreia de acordo com o peso aplicado no manejo da forma.

O conjunto de contos inicial exibe uma linguagem mais convencional, com sutis intervenções na narrativa, entre as quais o destacamento das falas em negrito no maciço do texto. Isso ocorre no primeiro conto “Linha de produção” que, escalonado em curtos espaços temporais, retrata uma tarde no cotidiano da prostituta Monique.

Em seguida, apresenta-se o ótimo “Depósito”, narrado por uma menina que sempre morou num shopping, atuando, na companhia da mãe, como manequim vivo. O alheamento, registrado nessa visão pueril, carrega uma crítica (ou um aceno) à artificialidade das relações interpessoais, ao convívio estéril.

“Fobia” e “Trabalha com cultura” têm a presença de resultado desse esvaziamento: o medo do mundo real e a insurgência de uma ideia de desprezo e de violência por quem está numa condição inferior. O sexo volta a ter destaque em “Um cálice amargo no Foxy Night Club”, e outra vez é o ato de servir-se do outro feito um repositório descartável.

“Fora do esquema”, o último texto dessa primeira parte, flerta com o gênero pulp, acompanhando um sujeito contratado para matar.

Começa, portanto, o segundo conjunto de contos, cuja estrutura é livremente heterogênea. As tramas seguem protagonizadas por atores auxiliares de uma metrópole selvagem, devassada, que os fazem dispositivos de funcionalidade, contudo tecidas em modelos variados.

Apontamentos dramatúrgicos, mosaico lírico, anotações de diário e alternância de perfis constituem o catálogo de experimentações.

A mudança radical na apresentação das narrativas, todavia, não representa uma guinada, pois a autora empreende o mesmo tom de uma prosa coloquial e bem sedimentada, que visa ilustrar esse ângulo da vida de baixo para cima, um exercício de alteridade para com aqueles presos a uma camada de abastecimento.

O eixo narrativo continua sendo mobilizado pelo motoboy, pelo atendente, pela manicure, pelo detetive, pelo segurança.

Catrópa parece retirar seus contos de uma hiper-realidade, embora sejam cortes de uma realidade na qual compartilhamos com pessoas que, de tão extraídas por aquilo que nos podem oferecer, acabam por se converterem em vozes sem timbre e rostos amorfos numa multidão.

***

Livro: Sem sistema

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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