Sob o holofote da condenação

No dia 14 de outubro de 2011, em Kansas City, Missouri, Jeremy Irwin retorna do trabalho, por volta das 4h da manhã, e nota a porta da frente de sua casa entreaberta.

Avança, então, rapidamente pelo ambiente escuro e silencioso, sobe as escadas até o quarto dos dois filhos e verifica que dormem, assim como sua esposa Debby, no cômodo ao lado. Por último, caminha até o berço da caçula Lisa, de 10 meses, e o encontra vazio.

Jeremy acorda Debby com brusquidão, perguntando sobre a bebê. Procuram-na por toda a casa, desesperados. Era a primeira vez que ele fazia aquele turno da noite, que tinha deixado a esposa e os filhos sozinhos. De repente, descobre que três celulares sumiram e que a tela de uma janela foi parcialmente arrancada.

Será que alguém invadiu a casa e raptou Lisa? Como isso poderia ocorrer sem que ninguém escutasse?

A explicação é que, horas antes, Debby havia compartilhado algumas taças de vinho com uma amiga, e desmoronou em sono pesado.

A norte-americana Shari Lapena parece ter se inspirado no drama real de Lisa Irwin para compor a premissa de O casal que mora ao lado.

Anne e Marco Conti vivem numa bela casa geminada, onde cuidam de Cora, a filha de seis meses. Na casa ao lado, parede com parede, moram Cynthia e Graham. No aniversário de 40 anos do vizinho, Anne e Marco são convidados para uma pequena confraternização entre os casais. Aceitam, com a condição de não levar a bebê.

Chamam, desse modo, a babá que, em cima da hora, cancela sua ida. Anne não quer mais ir (de fato, não queria ir antes: sente-se gorda e feia, sobretudo na presença de Cynthia, que esbanja uma beleza escultural). Contudo, Marco insiste e fica combinado de levarem a babá eletrônica e, a cada meia hora, um ir até a casa e checar Cora.

Na festa, todos bebem demais. Inclusive Anne, também incomodada com o flerte de Cynthia com seu marido. A certa altura, Marco e a oferecida vizinha vão ao quintal, supostamente para fumar. Isso foi logo depois de Marco verificar a bebê, à meia noite e meia. Na volta, Anne surta e decide partir com ou sem o marido.

Marco cede, vão para casa. Próximo à escada da entrada principal, Anne nota a porta entreaberta. Dispara casa adentro e não encontra a filha no berço.

Entra em cena, então, o terceiro casal da trama: Alice e Richard Dries, mãe e padrasto de Anne. Alice é sensata, enquanto Richard (que entrou na vida da enteada aos quatro anos, e ela o considera como pai) é arrogante e orgulhoso. São milionários. E odeiam Marco, ainda que tenham investido uma polpuda quantia na empresa do genro.

Por isso, uma das primeiras suposições é de que a criança foi sequestrada objetivando um resgate. Mas o detetive Rasbach, um homem sóbrio e astuto, não descarta nenhuma hipótese, inclusive aquela que aponta o envolvimento dos pais no desaparecimento da criança.

Quase não há sinal da presença de um estranho. Somente uma luz de emergência desatarraxada e marca de pneus. Até que os policiais descobrem um remédio de prescrição restrita no armário do banheiro. Anne está sofrendo de depressão pós-parto. Um quadro perigoso que pode ter conexão com algo ocorrido no passado.

Lapena monta o quebra-cabeça de sua trama de maneira contida e ágil. Frases curtas, que se devotam ao curso presente, finalizando cada capítulo com uma nova pista ou uma reviravolta. Tudo é centrado nos personagens, em suas psicologias e os segredos que escondem, expondo até mesmo os pensamentos (os bons e os ruins).

O núcleo dos casais (e suas interações) é sempre de onde parte e termina uma solução aventada, justificando a artimanha do título. O tal casal que mora ao lado, a quem fica sugerido de antemão recair a culpa, não é necessariamente os vizinhos de porta, mas qualquer um deles, inclusive os pais da bebê.

Na metade do livro, quando as consequências do primeiro ato recaem sobre a forma de enxergar os personagens, a narrativa perde ritmo, ao se preocupar em entalhar tais efeitos; o que permite ao leitor escapar daquele universo em que estava totalmente imerso. A necessidade também de a autora reiterar o quanto o sumiço da filha causa angústia e desatino na mãe é um recurso fatigante, contudo, ao vir à tona uma informação sobre mentalidade, acaba servindo a um propósito.

Na parte final, quando as pontas soltas começam a se encaixar, o livro novamente engata e, à parte um relacionamento entre personagens bem forçado, o desfecho é recompensador, ainda que sem revelações bombásticas, tal qual o andamento de um enredo amarrado e fechado em suas modestas pretensões.

Quase seis anos depois, o paradeiro de Lisa Irwin segue indefinido, depois de colocar seus pais sob o holofote da condenação. O sumiço de Cora faz o mesmo.

***

Livro: O casal que mora ao lado

Editora: Record

Avaliação: Bom

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