Vozes femininas contra a opressão

Por mais que a literatura seja um dos instrumentos mais potentes para se evidenciar dramas sociais, nenhuma tragédia tem, em sua conversão ficcional, capacidade suficiente para superpor os aspectos que determinam o vigor da literatura.

E olha que, em Sem gentileza, da sul-africana Futhi Ntshingila, os temas são os mais escabrosos: abuso infantil, estupro, miséria endêmica, epidemia, entre outros.

Mesmo assim a força do conteúdo acaba prejudicada por pontos de fragilidade na forma.

Estamos na África do Sul nos anos do apartheid. Mvelo, uma garota de 14 anos, sobrevive com sua mãe num assentamento involuído em favela. Contra a dureza da vida e o espectro da fome, o canto gospel, na igreja que frequenta, é seu único refúgio. Mas é justamente ali que é estuprada pelo pastor, do qual engravida.

Se não fosse desgraça suficiente, Zola, a mãe, é soropositiva. A aids debilita seu corpo a cada dia, e a finitude é um encontro de curto prazo.

Mvelo não tem pai. O mais próximo dessa figura foi Sipho, antigo namorado da sua mãe. Mas a primeira frase do livro dá conta da morte dele.

A gravidez (e, por conseguinte, o futuro do bebê) é o que embala a trama, não obstante o desenvolvimento se dá por meio de ecos de circunstâncias do passado.

A autora retrocede até a juventude de Zola, quando era uma estrela do atletismo no colegial. Ela se envolve com Sporo, o jogador de futebol mais popular, e engravida. O fato seria um acontecimento desastroso para os pais de ambos, de modo que decidem segurar a notícia. Daí um desastre recai sobre Sporo.

Tempo depois, quando trabalha num bar e Mvelo está com quatro anos, conhece Sipho, um advogado de causas sociais. O relacionamento se estende por altos e baixos, até entrar em cena Nonceba, uma mulher de beleza exótica, bem-sucedida, que foi morar nos Estados Unidos, e volta ao seu país natal junto a um grupo de trabalho.

Sipho e Nonceba tornam-se amantes, criando, desse modo, um triângulo amoroso esmagador para Zola (e que, mais à frente, será uma causa indireta para ela contrair o vírus HIV). Ainda assim, no curso presente da trama, será Nonceba que irá ajudar Mvelo a encontrar soluções para o destino do seu filho.

Ntshingila constrói um romance a partir dos estratos de uma realidade que impacta pelo modo brutal que se impõe seus costumes, suas crenças, suas leis. Uma das passagens mais marcantes, por exemplo, é quando descreve um teste de virgindade, que consiste em deitar as meninas em fila à beira de um rio e uma examinadora abrir suas vaginas com os dedos, a fim de se deparar com um “olho” que confirme suas purezas.

O machismo e a violência masculina imperam no entendimento coletivo que irá confeccionar o plano social, daí é interessante notar como a posição econômica e cultural da mulher afeta a maneira de ser tratada, como é importante dar forma a personagens que buscam altura para suas vozes nesse ambiente opressor.

À medida que Zola é derrotada pela aids e a gravidez amadurece, Mvelo cambia de papel com sua mãe, incorporando a si também um amadurecimento precoce, uma noção de responsabilidade que é bem ilustrada quando precisa cumprir um pedido do que ser feito com o cadáver de Zola.

Ao focar no andamento de seus personagens por esse mundo (mesmo que muito deles estereotipados), Ntshingila acerta.

O problema está na maneira que escolheu para contar sua história.

O fio narrativo se afrouxa por conta de um tom romanceado, que entulha de clichês e de imagens de gosto duvidoso a maioria das páginas. Coisas do tipo: “Tinha as curvas nos lugares certos e era alta (…) aquela flor selvagem, sem nutrição adequada, cresceu regada pela chuva e pelos raios de sol”, “O amor já havia transformado-a em uma flor que desabrochava tranquilamente” e “Da mesma forma que uma espinha pode se tornar uma ferida aberta, problemas começaram a surgir na alegre casa onde moravam”.

Com o avançar da leitura, fica a sensação de que a autora buscou contrabalancear a crueza dos temas que constituem o enredo através da linguagem. Não encaixa. Isso fica mais evidente na terceira parte, em que tudo é ajeitado para que se alcance, no final, uma mensagem de superação. Talvez funcionasse melhor, caso Ntshingila conseguisse atribuir a sua protagonista a mesma força que a norte-americana Alice Walker concedeu a sua Celie, em A cor púrpura.

Muitas vezes, a realidade precisa apenas da realidade para imprimir sua potência.

***

Livro: Sem gentileza

Editora: Dublinense

Avaliação: Regular

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