A infância moldada a socos

O cão mentecapto, de Otavio Linhares, é regido por uma brutalidade que se injeta pelos veios da infância.

Nos 16 contos que integram o terceiro livro do autor curitibano, os personagens se encontram em ocasiões de transformação e de (auto)estranhamento, através das quais a percepção de mundo passa por um filtro desfigurador que condiciona a violência como um meio irremissível de formação.

São crianças/adolescentes que surram e matam crianças/adolescentes, que descobrem as drogas e os fervores da puberdade, que começam a se dar conta de que os familiares adultos que os cercam não ostentam a medalha dourada do xerife ou o símbolo esplêndido do super-herói.

A noção de herói passa a obedecer a um critério suspeito. É o tio que dá um pau nos guris que tiram banca de valentões do bairro, ou os caras da escola que apavoram a todos e, mesmo assim, despertam admiração. e pensar que quem matou o piá foram os melhores do momento, lamenta o narrador do conto “Cães famintos”.

Tal comportamento, de onde sobressaem o embrutecimento precoce e a crueldade, incorpora-se naturalmente à banalidade da rotina.

É a Curitiba desoladora, que se faz aparecer justamente no que há de mais opaco, que se comunica por gírias e expressões regionais, porém um lugar que é, de uma só vez, distinto e familiar, feito por suas semelhanças e desajustes, a exemplo da ideia mirim de cidade que trazemos quando tudo se resume à rua, ao colégio, à casa do amigo.

Para dentro dela, embrenham-se os narradores que desfilam seus dramas correntes ou vão procurar, no baú de ossos, sentidos para uma existência guiada por traumas, invadida por fantasmas, sugada pela solidão. Os relatos também clamam por reconhecimentos e (auto)descobertas que, em instantes raros, são codificadas em metáforas, como visto no conto que empresta nome ao volume. o tronco é a pior parte de todas. a mais difícil de sacar fora. guarda um coração cansado e velho. depois da cabeça desencaixada tudo fica mais simples. fico com o cu e o pau. sim. o cu e o pau são importantes, conclui.

De fato, dado ao magnetismo e à naturalidade com que Linhares se expressa, surge a dúvida se o autor não estaria visitando suas memórias e as convertendo em ficção.

Sendo quase um todo do guri que odeia os almoços de domingo na casa da avó, do que adora a amiga da mãe que oferece bebida, do que frequenta as festinhas americanas, do que se entope de fandangos e coca, daquele que cabula aula para andar a esmo, fumar cigarros e desvir(ginar)tuar as filhas dos militarzões.

Linhares alcança tal fidedignidade ao se fazer observador nato do tema que conduz. O autor pratica um tratamento seco às tramas, levadas num ritmo acelerado que atropela a formalidade linguística, desrespeitando pontuações, hiperbolizando frases com o uso de onomatopeias, eliminando letras maiúsculas.

Com isso, a agressividade se emaranha pelo narrado, pela decifração da leitura, pela recorrência de um tempo morto que sempre triunfará sobre o presente.

A infância é a fase da vida da qual se sobrevive.

***

Livro: O cão mentecapto

Editora: Encrenca

Avaliação: Muito Bom

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