A cidade definida por um crime

Alberto Mussa não é um autor de mistérios prévios.

Na apresentação de A hipótese humana, ele revela de cara que se trata do quarto volume da série de cinco livros centrados na mitologia do Rio de Janeiro antigo, cuja filiação se dá por meio do gênero policial de assunto histórico.

O novo romance, prossegue o escritor carioca, baseia-se num caso de polícia mal documentado, que joga luz sobre um dos capítulos mais vívidos de sua lenda familiar.

Mussa segue informando que, a despeito da intimidade com o fato, não se restringiu aos entreouvidos caseiros, investindo em toda sorte de pesquisa, a fim de encontrar uma versão que naturalmente seria uma interpretação pessoal, contudo uma que não alterasse a essência do acontecimento.

Afirmei certa vez que uma cidade se define pela história de seus crimes. (…) e o leitor perceberá que tal sentença só se compreende quando se responde a uma questão preliminar: afinal, em que consiste, exatamente, um crime?

A resposta está onde de verdade começa o mistério do livro. E um dos bons.

Estamos na metade dos anos 1800, numa chácara situada no aprazível subúrbio do Catumbi. É noite alta. No térreo do casarão, a bela Domitila, filha do coronel Chico Eugênio, esposa do negociante Zé Higino, é encontrada morta dentro do quarto.

Sabe-se que, minutos antes, ela teve a companhia de um homem, que fugiu pela janela. Seria um amante ou um gatuno?

Uma caixa de joias desapareceu.

Sabe-se que seu pai, até então longe numa viagem, retornou de supetão. Seria um crime de honra ou um homicídio motivado por adultério?

Seis disparos de revólver foram ouvidos, apesar de a moça, encontrada nua, ter sido morta por um choque no coração.

Teria alguma ligação com os escravos, ou talvez com os ciganos? Por que o corpo foi sepultado às pressas, sem direito a exame pericial?

Eis que entra em cena o investigador Tito Gualberto. Produto ele próprio de uma suposta infidelidade, foi criado pela tia, casada com um industrial, depois de ter sido abandonado pelos pais: uma rezadeira meio cabocla e um carpinteiro português.

Da boa educação, ingressou no seminário de teologia, onde se especializou em latim. Mas acabou debandando-se para o mundo dos capoeiras (os vetores de violência da época), e, dali, tornou-se agente do serviço secreto da polícia. A escolha de Tito para o caso, aliás, foi feito pelo pai da vítima, o coronel com quem tem um obscuro parentesco.

Esse, aliás, não é o único segredo que o investigador guarda, ao se relacionar (e ser relacionado) com o crime.

Mussa tece esse enredo policial por um cenário de onde saltam a cartografia e a geografia humana de uma cidade em plena transformação/miscigenação, cujo eixo são as tensões sociais causadas pelas diferentes culturas e etnias, um fluxo caudal de vozes que percorre das senzalas aos centros espíritas.

O autor, posto na condição de narrador onisciente, imerge o leitor nesse passado vivo, ao valorizar os panos de fundo e emborcar a ficção por passagens reais, ilustradas por expressões, costumes, lendas e crenças. Outro acerto são os personagens. Muito bem construídos em aspectos físicos e psicológicos.

A maneira de narrar também é pitoresca. A todo momento o texto sofre uma pausa (ou uma digressão), apresentando um ator da trama ou resolvendo uma circunstância incidental que, a princípio desarticulada, vai se mostrar uma pista ou um atalho para se aproximar do crime. Algo episódico que não desfigura o formato romanesco.

A revelação do culpado, porém, não tem o impacto imaginado.

Contudo, o caminho até ele é pavimentado com tamanho engenho, que se torna um detalhe entre todos os detalhes afeiçoados que conformam uma cidade.

***

Livro: A hipótese humana

Editora: Record

Avaliação: Muito Bom

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