Manejo do texto em favor da forma

Dos 18 textos que integram a coletânea Palavras são para comer, da escritora carioca Myriam Campello, o terceiro, “Breve história de bruxa”, é aquele que detém maior impacto visual, por razões morfológicas e estilísticas.

A narrativa, que versa sobre uma mulher amaldiçoada com a supressão de vogais, enviesa-se num relato todo criado sem as letras A e E.

É um tipo de jogo cerebral, que dá conta de todo o jogo que é o livro.

Uma coleção de histórias compósitas na qual se evidencia uma atenção maciça pela manobra da forma, fazendo dos meandros narrativos um conjunto de montagem que a todo tempo constrói e desconstrói o léxico, transforma-o num puzzle.

Seria leviano – ou, ao menos, imprudente – afirmar que não existe sedimento para o enredo. Sim, há, e este se escora em temas como as relações interpessoais, os xeques-mates emocionais, o percurso do mundano e a presciência do sagrado cristão.

Um humor furtivo também se tocaia entre as frases.

O caso é que a sucessão de acontecimentos que determina a ação – seja a prática ou a mental – está no fundo desse espaço em que a estrutura se superpõe ao acabamento.

Um exemplo bem-feito é o conto inaugural “Flare”. Um homem ilhado numa plataforma de petróleo recapitula seu amor transoceânico por uma mulher chamada Helena, uma ausência de dor física, uma figura mitológica troiana.

Toda contida num bloco único, a trama se aglutina por meio de divagações e de referências – ou alusões – literárias.

Ainda detido no exame de personagens, “Fossa das Marianas” é um calendário de pequenas mensagens que esmiúça um triangulo amoroso, a partir do ponto de vista da esposa que trai, e a quem realmente trai. “Elisinha” adiciona mais arrojo, instando uma leitura calçada na ideia de brincar com a norma culta.

O conto é salteado com palavras “eruditas” cujas explicações vêm como notas de rodapés “para o entendimento dos jovens”. Alguns dos diálogos – ou dos pensamentos – adquirem o feitio de versos, e ainda se infiltra, pelo esteio da narração, um questionário de múltiplas escolhas.

A coletânea, então, alcança seu ponto alto com o grupo “Interregno bíblico”. São quatro contos que se intercomunicam tendo como matriz o Pecado Original, nos quais ganham voz ativa participantes da passagem: a Serpente, Lilith, a Maçã e Caim.

A parte final volta a manejar o texto em favor da forma – inclusive, com a inclusão de um poema -, porém perdendo gradualmente o radicalismo e adotando um tom mais convencional. Ainda assim, o caráter movediço leva ao exercício da polifonia, do roteiro, do caleidoscópio linguístico.

Campello não compõe um livro que espera um leitor, mas um que está ali, à disposição de um leitor que espera algo de um livro.

***

Livro: Palavras são para comer

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Bom

Anúncios

3 comentários sobre “Manejo do texto em favor da forma

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s