De: Caio F. // Para: Hildinha

A amizade entre os jornalistas Paula Dip e Caio Fernando Abreu teve início na chegada dos anos 80 e durou até a morte deste último, em 1996, em decorrência da Aids. Neste período, Dip viu de muito perto Caio F. (como passou a assinar mais tarde) tornar-se escritor, dramaturgo, roteirista; ganhar prêmios; morar fora do país; retornar ao Brasil; sofrer por amor; lutar pela democracia; sobreviver à ditadura militar; celebrar a reabertura política; e descobrir-se portador do vírus HIV. Momentos registrados, com afinidade e ternura, nas inúmeras cartas que ambos trocaram durante esses quase vinte anos, e que serviram de base para Para sempre teu, Caio F. – Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu, publicado em 2009. Sucesso editorial, o misto de memórias e correspondências, organizado por Dip, inspirou ainda um documentário de mesmo nome.

Agora um novo lote de cartas da estirpe de Caio Fernando Abreu chega às livrarias, outra vez compilado e comentado pela jornalista. Numa hora assim escura reúne missivas que o jornalista e escritor endereçou à escritora paulista Hilda Hilst, entre as décadas de 70 e 90. O material inédito, que se distende do relato confessional a contos e poemas, foi comprado do poeta baiano Antonio Nahud Júnior, que o salvou de ser queimado por Hilda, após uma briga feia com Caio F.

A origem, desse modo, expõe a alma do livro: a cumplicidade (eixada pela paixão e pelo desentendimento) e o caso de amor literário entre seus atores principais. Por meio do conteúdo epistolar, é possível identificar duas pessoas que, através de um forte laço afetivo, completaram-se artisticamente e forneceram, ainda que de maneira incidental, um panorama precioso de suas épocas, sobretudo no que diz respeito a fazer da escrita um instrumento preponderante para a existência

As primeiras cartas dão conta de um Caio saído da adolescência, de cabelos compridos (como mostra uma das fotografias que ilustram a edição), e um tanto de ideais mexendo com sua cabeça. É esse jovem que se vê atraído pelo misticismo que envolvia a Casa do Sol, um recanto bucólico em Curitiba, onde Hilda havia se refugiado para se dedicar à literatura, após uma vida de luxo e matrimônio. Ali, são embalados pelos ventos da contracultura; uma relação a princípio de mestre e aprendiz, mas que, pouco a pouco, fortifica-se num pacto de amizade, legítimo por toda a vida (apesar, insisto, das turbulências) e que foi inestimável para a formação literária de Caio.

Como aponta Dip, na narrativa que costura passagens extraídas das missivas a fatos da vida dos escritores, Caio aprendeu com Hilda a dedicar muitas horas de seu dia à escrita e à leitura. A Casa do Sol tornou-se, para ele, um espaço de reflexão, estudo, vingando, até hoje, como referência para artistas, escritores e cineastas. Um encontro onde era livre a prática da alteridade, na qual não era raro o câmbio de posições. O rapaz trouxe o frescor da juventude, enquanto ela o confortou com a sabedoria da maturidade. Até conhecer Caio, Hilda só havia escrito poesia. Em 1970, publica Fluxo-Floema, seu primeiro mergulho na ficção, e dedica a ele um conto, “Lázaro”, para mim um dos mais belos da língua portuguesa. Logo depois Caio publicou Limite Branco, seu romance de formação, cujos capítulos ela editou, escreveu título e epígrafe, conta.

Um dos momentos curiosos está numa carta enviada de Londres, na qual Caio faz um comentário bem maldoso sobre um livro póstumo de Clarice Lispector: “Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”. A autora observa que o escritor trazia, da juventude, uma obsessão literária por Clarice que, depois de se relacionar com Hilda, veio ao chão. Em entrevista, Dip comenta a relação do escritor com suas musas: Caio se apaixonava perdidamente por suas musas. Seu texto foi marcado pela profundidade abissal de Clarice. E o amor pela musa nunca morre, amores e musas se acrescentam. Clarice era distante, calada; Hilda, um turbilhão. E Caio não esteve perto da Lispector no cotidiano, como aconteceu com Hilda. E acrescenta: Caio perdia um amigo, mas não perdia a piada. Exercia um humor ferino, era witty como poucos. Para ele, poder zombar por escrito de Clarice, numa carta para Hilda, era como provar a si mesmo que a fila andava e que o futuro ainda lhe reservaria muitas musas.

A maior delas, obviamente, foi a literatura, a quem Caio fiou sua vida adulta, inclusive ao receber o diagnóstico de soropositivo. Nesse período de proximidade da morte (naquela época, a Aids era uma sentença fatal), foi quando o escritor mais se entregou à escrita e, como observa Dip, “viveu intensamente e positivou sua relação com o mundo”. Essa parte do livro dá espaço para um depoimento bonito de Hilda, ratificando a mudança de comportamento de Caio e o afeto entre ambos que se colocava acima de qualquer condição. Ele quer demais viver para dizer ainda algumas coisas e essa coragem me impressiona. Às vezes quando não estou bem eu ligo chorando para o Caio e ele, apesar de doente, ainda me consola. Ele se tornou um homem doce, meigo e solidário, revela a escritora.

A declaração é retirada de uma entrevista de Hilda concedida ao O Estado de São Paulo, em dezembro de 95. Um recurso muito utilizado por Dip para atrair a participação da escritora no livro. Se há algo que se possa destacar de maneira negativa, é o desequilíbrio entre a voz ativa da escritora em relação a de Caio. Da compilação de cartas, a grande maioria vem do autor de Morangos mofados. Dip explica, desse modo, o fato: Hilda morava no campo, raramente checava a Caixa Postal que ficava longe, no Correio da cidade. E as cartas já estavam velhas, talvez não achasse necessário responder. Era uma vida reclusa mas bem cheia a que Hilda Hilst levava na sua Casa do Sol.

Justificável ou não, a questão, de fato, mostra-se menor diante do valor desses registros que jogam luz, por meio do secreto das cartas, sobre a vida pública e a literária de dois de nossos principais autores contemporâneos. Uma coleção que, seja pelo texto ou pelo cuidado do projeto gráfico, comprova o quão incomparáveis eram Caio F. e Hilda H., independente do formato que abarcavam seus escritos.

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Livro: Numa hora assim escura

Editora: José Olympio

Avaliação: Muito bom

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