Na companhia da natureza selvagem

O ano da lebre, do escritor finlandês Arto Paasalinni, foi reconhecido uma obra-prima da literatura mundial pela UNESCO. Originalmente lançado em 1975, o romance se destaca mais pelo poder presciente de sua história que pela costura de sua trama. Lido hoje, é interessante notar como anteviu o homem moderno, excessivamente urbano e coleirado a valores materiais, que precisaria se livrar de sua própria identidade para iniciar uma jornada de autorreconhecimento e transformação.

É isso, de fato, que acontece com o protagonista do livro, o jornalista Kaarlo Vatanen. A trabalho numa cidade rural, ele é surpreendido quando o carro pilotado pelo fotógrafo atropela uma pequena lebre. Vatanen sai em busca do animal ferido, enquanto o colega, aborrecido com a demora da situação, decide não mais esperá-lo e ir embora. À noite, já no hotel, o fotógrafo se arrepende e resolve voltar para buscar Vanaten. Porém o jornalista desaparece.

A verdade é que ele não desapareceu, mas fugiu. De tudo e de todos. Nos dias seguintes, larga o emprego, abandona a esposa, vende o barco e salva uma parte do dinheiro para se lançar numa aventura pela natureza selvagem, tendo como única companhia a lebre. Ao sabor do acaso, vagueia pelo interior do país (e, depois, fora dele), dormindo em tudo que é canto, fazendo amizade com diferentes tipos, aceitando empregos incomuns e passando e salvando-se de apuros. É detido numa delegacia, ajuda a controlar um incêndio florestal, lida com um corvo ladrão e um urso feroz, briga com um assassino de animais, assiste o parto de um bezerro, entre inúmeras coisas.

Paasalinni estrutura seu romance em curtos episódios, no qual uma situação liga o protagonista a um personagem que o conduz a uma outra situação em que se revela um novo personagem, e assim por diante. Depois de alguns capítulos, o romance cai no risco de se tornar esquemático, porém é salvo pela caracterização dos atores de sua história. Há um clima meio que de absurdo envolvendo a tudo, com figuras excêntricas, circunstâncias extraordinárias e fugas da narrativa principal, que dão conta de uma teoria sobre um sósia que tomou o lugar do presidente, um ritual pagão e um processo de acusação de espionagem expedido pelo governo soviético.

Dessa contextura inusitada, sobressaem os prazeres da liberdade, a reaproximação do homem ao seu lado primitivo e um valor de amizade (ainda que um tanto inusitado) entre um adulto e um animalzinho. Quem nunca pensou, em algum momento da vida, se não seria melhor jogar tudo para o ar e viver livre, leve e solto, sem maiores preocupações? Esse é o preceito moral que caracteriza as fábulas. E O ano da lebre é isso, afinal: uma espécie de fábula escrita de maneira satírica e bem-humorada; lembrando, claro, que se trata de um humor finlandês.

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Livro: O ano da lebre

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Bom

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