Um banquete de carne de gaivota

Quatro amigos de infância, de uma cidadezinha do interior do Paraná, são aprovados em universidades cariocas e alugam um apartamento em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Miguel ingressa no curso de medicina; Leitão, em ciência da computação; Hugo, em gastronomia; e Dante, em administração.

Apesar de cada um guardar sombras do passado, a ideia é encarar o futuro de frente e projetar seus sonhos. Ser um cirurgião renomado e ajudar a mãe humilde, com histórico recente de câncer; tornar-se um famoso chef de cozinha, talvez com um programa de tevê; gerir o próprio negócio ou ter um bom cargo numa grande empresa; aventurar-se no mundo digital, ao mesmo tempo que, no real, dedicar-se a perder peso e dar continuidade ao congregamento evangélico.

Ocorre que nada sai como previsto para os personagens de Jantar secreto, novo romance de Raphael Montes. Quatro anos depois, com a maioria já formada e diante da crise econômica que dava sinais de estacionar no país, no final de 2014, a vida é um desastre ambulante. Mesmo com especialidade na França, Hugo trabalha em buffets. Miguel vira as madrugadas em plantões num hospital público. Leitão, que abandonou a faculdade no segundo período e agora pesa quase duzentos quilos, passa os dias trancado no quarto, fumando maconha, jogando videogame ou agindo como hacker. Dante, o narrador da trama, atende numa livraria, enquanto estuda para concursos públicos.

De melhores amigos, passam a ser colegas de apartamento, cujo aluguel cumprem com dificuldade devido aos altos reajustes. Bukowski, carro que tem esse apelido por ser velho e beber muito, é outra despesa. O Rio não é uma cidade para amadores, retumba aquela máxima. E eles descobrem isso tardiamente.

Assim como descobrem tardiamente que o pagamento do aluguel dos últimos seis meses não fora feito. Leitão é o responsável por fazer o depósito online. Mas, depois de ganhar de presente de aniversário dos amigos uma transa com a prostituta Cora, ele passa a usar o dinheiro para custear novos encontros. A dívida passa dos 25 mil reais.

A solução encontrada é se escrevem num site que organiza jantares secretos. Usar o dinheiro que sobrou e a expertise de Hugo para preparar um cardápio de luxo e deleitar um grupo restrito, no apartamento deles. Cada um teria sua função, sendo a de Leitão produzir o material de divulgação e fazer a inscrição virtual. No entanto, mais uma vez, seu comportamento imaturo e imprevisível faz, de um problema, um problema maior.

Lembrando da anedota do sujeito que, depois de um acidente aéreo, sobrevive numa ilha com algumas pessoas que lhe oferecem carne de gaivota, sendo que era carne do cadáver de sua esposa, Leitão troca, no cadastro, o item carne de cordeiro por carne humana. A brincadeira os expulsam do site, mas não antes de ele copiar o e-mail de dez usuários interessados e fazer um proposta extraoficial. O preço seria três mil por pessoa. Acertariam a dívida e ainda teriam um bom lucro. Sim ou não?

Apesar de a decisão não ser unânime, optam por realizar o jantar. Daí avançam para algumas questões básicas: como conseguir um cadáver?, como transportá-lo sem levantar suspeitas?, como saber a qualidade da carne?, como fatiar o corpo?, qual destino dar às sobras?

As respostas para todas essas perguntas, que surgem de forma inesperada, são a chave para uma porta pela qual não há retorno. Cruzá-la sem determinar as consequências do ato – romper o tabu, violar a lei racional dos homens -, irá lançá-los numa espiral de situações na qual a ganância se materializará num monstro autofágico, numa roleta-russa de horrores cujo preço a pagar será mais caro que a morte. A certa altura, um personagem diz: Não é canibalismo… Se a gente só prepara o jantar, não somos nós os canibais. Pode parecer um ponto de vista, mas é algo que infla ao ser colocado sob a travessa da moralidade.

Embora em momento algum intente um tratado antropológico, Montes injeta, em sua trama, discussões interessantes relacionadas ao carnivorismo. Comer um suculento bife mal passado certamente geraria reações escandalosas, ao saber que se trata de carne de cachorro e não de boi. Mas por que não há problema em mastigar um novilho, e sim em devorar um buldogue francês? O que diferencia o cachorro do cordeiro? Se matamos para comer, por que desperdiçamos a carne que será enterrada?

Esses momentos de reflexão ocupam, em grande parte, os diálogos, mas também estão no desenvolvimento da trama, sobretudo quando a violência gráfica transforma o ato de ingerir carne uma opção realmente nauseante. O autor pega pesado em algumas descrições de cena. São passagens perturbadoras, porém que não se desarmonizam do contexto. Do mesmo modo que não se exime em expor o nervo social, ao tratar de racismo, de corrupção e da maneira descartável de se enxergar o pobre.

Outros acertos referem-se a dois retratos. O primeiro é o da Zona Sul do Rio de Janeiro, com seu mercado imobiliário feroz e desleal, e uma elite que paira sobre uma sociedade dividida por um abismo (ou um morro). O segundo vem da juventude e do modo que seus constituintes compensam as frustrações e os vazios nas redes sociais, nos aplicativos de encontros que geram relacionamentos fugazes, mini orgasmos fabricados em meio a um universo de desilusão e tédio.

No que diz respeito ao enredo, a execução é igualmente satisfatória. É notável a maturidade da escrita de Montes, de Dias perfeitos, romance de 2014 que o projetou, para o livro atual. Todos os personagens são bem construídos (e desconstruídos), também em suas psicologias, e a narrativa flui intuitivamente, mesmo ao se meter em reviravoltas e sair do foco principal (há uma sequência toda montada em mensagens do Whatsapp que tinha tudo para dar errado, e é divertidíssima). Quando as circunstâncias dos jantares perdem impacto, o autor propõe um mistério acerca da identidade de um personagem, que é levado com destreza e oferece um desfecho aceitável, embora todas as pistas estejam expostas para que a solução seja antecipada pelo leitor. Esse artifício é clássico dos livros de suspense, e aqui funciona.

Muito porque as influências e as referências são bem escolhidas e aplicadas. Em dado momento, o diretor e roteirista Quentin Tarantino é citado, e não há nada mais tarantinesca que a ação contida no capítulo final. As tramas do delegado Espinosa, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, também emprestam algumas de suas tintas, assim como se pontua um tipo de humor que se faz vivo nos textos policiais de Mário Prata e de Luis Fernando Verissimo. Tem suspeitos, tem violência, tem observação social, tem irreverência, tem sexo, tem mortes; o que compõem quase uma cartilha para aquele que o romance reverencia de fato: o i(ni)mitável Rubem Fonseca.

Mesmo para quem só leu um conto do escritor mineiro, é impossível deter a sensação de déjà-vu. Montes revisita caminhos antes explorados por Fonseca, sobretudo na primeira fase de seus romances, que vai de O caso Morel, de 1973, a Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, de 1988. Mas o faz bem, sem precisar que lhe segure a mão, entregando uma história com identidade, dinamismo e capítulos bem enganchados. Um romance (desculpe-me o trocadilho) sem gorduras.

***

Livro: Jantar secreto

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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