O despertar de um escritor

Santiago é um garoto de 13 anos que passa pelas transformações físicas e psicológicas típicas da idade. Sente os braços e os pés crescerem de maneira desproporcional, descobre rastros de pelos onde antes não existiam, começa a enxergar as garotas de um jeito diferente.

A que mais lhe encanta é Valerie, uma colega da escola. Do seu círculo de amizade, também fazem parte Agnes, cujo sentimento real pelo amigo se disfarça numa lealdade fraternal, e Lupi, que, com a morte prematura dos pais, é criado pelo irmão mais velho, Quirino.

De maneira aparentemente regular, todos enfrentam as vicissitudes da pré-adolescência, no nível freático da rotina escola-casa-casa-escola, adesivada ao cenário de cidade pequena, onde tudo gira em torno de uma praça e, quem não é parente, é vizinho.

Santiago, porém, tem um problema mais grave: os apagões. Sem sobreaviso, seu corpo desliga e ele dorme. Na rua, na sala de aula, dentro da piscina. Mais adiante, depois que o professor Levi (pai de Valerie) nota a reincidência do comportamento e alerta seus pais, ele é levado a um especialista, que diagnostica narcolepsia. Uma doença que se caracteriza pela sonolência excessiva durante o dia, desencadeando ataques e paralisia corporal após momentos de forte emoção.

Outro sintoma está relacionado às alucinações. E esse é o que mais atormenta Santiago. A veracidade desses estados oníricos detona momentos de descontrole que terminam muitas vezes em chacotas e põem a prova sua sanidade e vontade de viver.

Tudo conspira para uma série de eventos derradeiros, entre quais o encontro do primeiro amor, uma fuga inexplicável e um acidente fatal, que levarão vinte anos para se conectarem e darem forma a uma revelação apavorante (e, aposto, uma que ninguém poderia imaginar).

Modos inacabados de morrer, do gaúcho radicado em Santa Catarina André Timm, é um romance de formação não convencional em sua estrutura e desenvolvimento de enredo. Narrado, em grande parte, na segunda pessoa, o livro, que venceu a Maratona Literária de 2016, promovida pela editora carioca Oito e Meio, ainda se vale de notações, escritos epistolares e apêndices na modelação de seu ator principal, um personagem cuja realidade é constantemente assaltada pela fantasia.

Esse tempo movediço, que em mãos destreinadas resultaria numa muleta narrativa, proporciona duas experiências interessantes: o resgate, na memória do leitor, de suas próprias turbulências com a chegada da puberdade, e a composição de uma atmosfera urdida pelos efeitos complexos da doença, porém descrita de maneira flexível, em frases curtas que conservam apenas o essencial desse mundo volátil, ambiguamente deluso e concreto, infantil e adulto.

Em sua estreia no romance, André Timm explora caminhos indistintos para se colocar no time principal dos novos autores brasileiros.

***

Livro: Modos inacabados de morrer

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Muito Bom

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