Um romance que não se cumpre

Otto Funk é um oficial de Hitler que, por conta de seus crimes de guerra, foge para a América do Sul. O destino inicial seria a Argentina, mas acaba desembarcando no Brasil, onde descobre os encantos de Iracema, entre vislumbres e mistérios das terras cariocas.

Meses depois, na busca por trabalho, acaba parando em São Paulo, numa das fábricas da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Porém a paixão pela morena, que carrega na constituição física a herança dos índios manauaras, o traz de volta para o Rio de Janeiro, onde se casam e têm uma filha chamada Diana.

Otto Funk é quem naturalmente se poderia apontar como protagonista de Um nazista em Copacabana, do jornalista e escritor Ubiratan Muarrek. Mas não é. Quando o romance dá partida, o alemão está morto, e sua história é repassada por meio da conturbada relação entre sua esposa e filha.

Iracema, agora, é uma mulher sem os atributos de outrora. Vulgar, desbocada, passa os dias tomando cerveja e maldizendo a tudo e a todos. Seu alvo principal é a filha, que, acautelada por uma gravidez de risco, fica a maioria do tempo confinada no quarto.

No meio desse campo de batalha, está Circe, uma vizinha com livre acesso ao apartamento, que age ora como apaziguadora, ora como ouvinte, ora como bisbilhoteira da vida alheia, em especial o passado recente de Diana.

Reside nesse período, aliás, a bronca de Iracema. O pai do bebê está foragido, depois de se meter num esquema corrupto dentro de uma prefeitura do ABC paulista. O escândalo explode quando a filha de um dos envolvidos é sequestrada e morta, mesmo com o pagamento do resgate. A cabeça é deixada em frente ao portão de sua casa.

Essa é a premissa que se apresenta nas primeiras páginas, de maneira muito animadora. O silêncio de Diana guarda verdades desse enredo sinistro; o destempero de Iracema vai soltando pistas do que aconteceu; e Circe, que descobre a história pelos noticiários, assume o papel do leitor, ao cavar informações em terreno pedregoso.

Muarrek também não se intimida em surfar em sugestões. As referências de sua trama são explícitas. O ex-companheiro de Diana chama-se Delúbio, e o esquema de corrupção que faz parte repercute no mesmo momento em que o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, é preso, por fazer parte de um esquema de corrupção. ABC paulista, crimes envolvendo prefeitura e sequestro também deixam claro onde o autor quer chegar.

O grande problema é que o livro não consegue executar o que ofertou.

Depois de um encontro que reforça a participação de Diana no arranjo criminoso, a segunda parte volta ao instante em que a personagem e Delúbio acabam de chegar em São Bernardo do Campo, e este é contratado por uma agência de publicidade que presta serviço para a prefeitura local.

O esperado seria remontar os acontecimentos que culminaram no assassinato terrível revelado na primeira parte, porém não é isso que ocorre.

Muarrek opta por fazer uma investigação desse universo corrompido e dos atores que o corrompeu, traçando paralelos com os descaminhos da sociedade brasileira pós-ditadura, com a noção de poder que está ligado aos crimes propagados pelo nazismo. O caso é que é mal orquestrado, e o romance se descentralizada, tropeçando em suas próprias escolhas, preocupando-se com subtramas que se configuram becos sem saída.

A narrativa fica confusa, maçante e incorre no pior dos erros: fazer sentido apenas para quem a escreveu.

Ao fim, a impressão que fica é que, se o autor tivesse optado por uma trama com características mais comerciais, assentada no thriller, por exemplo, a premissa teria funcionado melhor. A história contemporânea, inclusive, dá conta de vários mistérios relacionados a presença de nazistas no Brasil.

Olhando com cuidado, a política abriga alguns desses.

***

Livro: Um nazista em Copacabana

Editora: Rocco

Avaliação: Ruim

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