A morte em tonalidades vivas

Um menino sai em socorro de um homem crucificado numa árvore. Muito depois, ambos estão mortos. De maneira acidental, a criança tem a cabeça separada do corpo. Isso acontece nos parágrafos iniciais de Céus e Terra, do baiano Franklin Carvalho. O restante das duas centenas de páginas será conduzido por esse narrador póstumo, uma voz onisciente que, ao deslindar a si ao ambiente em que fez parte, constrói o romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016.

Seu nome é Galego, e estamos em Araci, no sertão da Bahia dos anos 70. As tradições e as idiossincrasias têm um traço grosso no delinear do cotidiano. Ar fustigado, geografia desidratada, homens embrutecidos por um crescer em sobrevivência, no qual o religioso se sobrepõe à razão. O menino passa a catalogar os dias que sucedem seu divórcio do corpo físico. O faz por oito meses, de abril a dezembro. Dessa maneira também são divididos os capítulos do livro.

Começa pela ocorrência do próprio sepultamento e pelo fim dado ao corpo do homem crucificado, um cigano. Assiste a fuga do homem que o decapitou. Relata as reações da população a esse propagativo estado fúnebre, até se deparar com outra morte. A de um lavrador, patriarca de uma família de mulher e dois filhos, um homem regido pela severidade ao mesmo tempo que por uma visão de mundo em que a crendice se desaperta em poesia.

Jurou à esposa que no céu ficamos mais perto da pessoa que amamos e podemos provar de novo o melhor bolo que comemos, e sabores que nem imaginamos (…) E podemos voar, ele disse isso aos meninos, sentado com eles na varanda, voar sobre a cidade de Araci e sobre o mundo, ou nadar na areia sob os pés das pessoas, e nosso ouvido ouve tudo que acontece no universo, até o voo de um beija-flor ou de uma abelha distante. No céu, somos como Deus, e vemos a gema dentro do ovo.

Sob a rotina dessa família, o personagem fantasma irá planar e, a um só tempo, acompanhar a movimentação na cidade: as conversas nos estabelecimentos, as cerimônias, as mudanças naturais, as chegadas e as partidas, a presença reativa do circo. Configuram-se dois planos de deslocamento que, de fato, são complementares. Uma investigação íntima e outra coletiva, mas que se alojam dentro de um cenário cuja composição depende da interpretação desse olhar sensível à própria ingerência.

Franklin Carvalho resgata uma temática que, por conta de uma linguagem intensa em lirismo e cores (e, por assim ser, de um rico pendor pictórico), aproxima-se da literatura de Guimarães Rosa, temperada com artifícios e elementos característicos do realismo mágico. O trançar da temporalidade a favor de ocasiões em que o extraordinário rompe frestas na realidade banal, sendo a condição do menino defunto, obviamente, a principal delas.

Há igualmente uma forte presença do sagrado nas relações interpessoais, feito uma goma que adere os personagens que pertencem a esse núcleo de observação. Do catolicismo ao candomblé, o vigor simbólico dos mitos e dos santos determina as sendas daqueles que, incapazes de avançar ao encontro de suas venturas, evocam resoluções do plano espiritual. O menino, assim, acaba sendo incorporado a esse poder de fé, a esperança de que na sobrevida exista a chave para os milagres.

Céus e Terra não é um livro que se notabiliza pela ação, e sim pelo magnetismo das palavras que o compõem. Um belo exercício de tratar com tonalidades vivas um universo onde reina diversas formas de morte, sobretudo aquela que é um sopro acima para uma nova existência.

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Livro: Céus e Terra

Editora: Record

Avaliação: Bom

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